O Livro “A Riqueza das Nações” é Amoral? (Terceira Parte)

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos seus próprios interesses. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua autoestima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles. Ninguém, a não ser o mendigo, sujeita-se a depender sobretudo da benevolência dos semelhantes.”Adam Smith1

Essa afirmação de Adam Smith no livro A Riqueza das Nações tem sido apontada como uma evidência de que a sua opinião sobre benevolência e egoísmo teria mudado drasticamente no período de 17 anos que separou cronologicamente a publicação dos seus dois livros. De acordo com esse entendimento, no primeiro livro publicado em vida Smith teria defendido a benevolência e se oposto enfaticamente ao egoísmo. Enquanto no segundo, teria passado a justificar e tomar partido, do egoísmo.

Esse tipo de entendimento só pode ocorrer para alguém que não leu, com um mínimo de atenção, os dois livros.

No livro A Teoria dos Sentimentos Morais Adam Smith havia considerado a Benevolência (e a Beneficência) um dos valores morais (virtudes) mais importantes. Contudo, ele reconhecia também o óbvio. Na prática mundana das relações sociais e econômicas verifica-se, com frequência, o oposto da benevolência: o egoísmo predatório.

Mesmo assim, segundo Smith, nem tudo está perdido. Pois a prática de uma virtude bem inferior à Benevolência – o legítimo interesse pessoal, respeitador dos direitos de outrem – pode ser transformada em benefício público, por meio das relações sociais e dos mercados. E a repressão ao egoísmo predatório demanda uma Justiça Comutativa e Penal efetivamente funcional.

No caso dessa afirmação de Smith, contudo, sequer seria desejável, moral e economicamente, o uso da Beneficência. Pois não seria razoável a recomendação de que pessoas saudáveis e habilitadas para o trabalho pudessem, como princípio, colocar sob a inteira dependência da caridade alheia (caridade privada ou ajuda do poder público) o suprimento das suas necessidades básicas. Menos ainda, do seu progresso material e melhoria de vida.

Contudo, de forma alguma Adam Smith condena, por meio dessa afirmação, a beneficência privada e a ação dos governos, em benefício dos mais pobres.     

Na verdade, ela pode ser entendida como uma forma de conciliação, por meio dos mercados, entre os objetivos de servir e ser servido. É atentando para as necessidades dos outros, e verificando de que forma se pode supri-las, com o melhor preço e qualidade possível, que as pessoas capacitadas a trabalhar deveriam escolher uma forma legítima e eficaz de ganhar dinheiro para atender às suas próprias necessidades.

A afirmação ressalta implicitamente, também, a importância do empreendedorismo e da livre iniciativa, em benefício sustentado de toda a sociedade.

Reforçando um Esclarecimento

Volto a prevenir aos meus improváveis leitores que não estou fazendo e não farei, por enquanto, uma defesa das economias “capitalistas”, tal como elas têm sido. Isso eu me proporei a analisar mais adiante, quando estiver abordando o capitalismo moderno. Por enquanto, limito-me a descrever fundamentos morais que Adam Smith encontra no comércio, na competição e no lucro, em seus livros sobre ética e sobre economia. E a tentar esclarecer mal-entendidos sobre suas posições.

Vamos dar prosseguimento à descrição e análise das referências éticas constantes no livro A Teoria dos Sentimentos Morais que servem de ponte e conexão com o livro A Riqueza das Nações (ambos como parte de uma obra sobre Filosofia Moral).

Comércio e Competição

Parece-me um fato óbvio que a possibilidade da troca de bens e serviços nos mercados venha exercendo uma função de grande importância, até para a sobrevivência dos seres humanos, desde a invenção da moeda (antes, essa troca era feita por meio do escambo). E, para Adam Smith, enquanto as relações sociais, a empatia e a imaginação eram condições necessárias para o desenvolvimento dos valores morais, por meio do comércio o homem também poderia cultivar a socialização que ele tanto necessita e aprecia.

Smith expressa essa opinião já em suas notas de aulas sobre Retórica e Belas Letras, que ele começou a redigir anos antes de publicar seus livros sobre Ética e sobre Economia Política. As conexões desse trabalho com os outros temas da obra de Adam Smith foram relatadas na Introdução do livro “Lectures on Rethoric and Belles Letres”, publicado pela Glasgow Edition.2

Outros autores também destacam aspectos importantes dessas conexões. Exemplo:

“De acordo com Smith, a essência e o fundamento da troca e do comércio estão na linguagem… O discurso retórico remete à luz a dimensão social e humana concernente às relações de troca. A troca de bens requer um acordo obtido por ´barganha´… A economia é ´economia política´ no sentido de que, paralelamente às relações dos homens com as coisas, é uma ciência que estuda as relações entre os próprios homens. A oferta e a demanda incorporam os desejos e vontades dos homens. Isso nos leva, portanto, a realizar um estudo detalhado das relações de troca como relações morais e de persuasão, revelando a ´linguagem da troca´”.3

A ideia é parte de uma visão mais ampla, segundo a qual a troca de bens é vista como extensão da troca de sentimentos e opiniões, da qual resulta a formação dos valores morais, no livro A Teoria dos Sentimentos Morais. Para Adam Smith, o comércio também é entendido como um fenômeno moral e comunicativo.

Contudo, mesmo na “economia natural da liberdade” concebida por Smith como meio de superação da pobreza e da miséria pelas nações, a competição entre produtores e comerciantes exerce um papel crucial. E, pelo menos à primeira vista, isso parece entrar em contradição com a forma de vida tão valorizada por Smith, tendo em vista o objetivo da Eudaimonia (felicidade), no livro A Teoria dos Sentimentos Morais: a Benevolência, a disposição para o serviço desinteressado a outrem.

Mais uma vez, portanto, a moralidade do livro A Riqueza das Nações se dá, necessariamente, num nível menos profundo do que no livro A Teoria dos Sentimentos Morais. No livro sobre Economia, a exigência moral admite que os agentes econômicos ajam motivados pelo interesse pessoal legítimo, o anseio por melhorar de vida, sem desrespeitar os direitos das outras pessoas e as leis em vigor.

Quais as Funções da Competição e do Lucro, na Economia da Liberdade Natural de Adam Smith?

A competição é o que resulta na exigência do empenho em produzir os bens e serviços com o menor preço e a melhor qualidade possível. Se esses preços e qualidades não forem “competitivos”, os empreendimentos dos produtores e comerciantes não sobreviverão – irão à falência. Ou seja, a competição é movida exclusivamente pelo legítimo interesse pessoal. Mas isso pode ser transformado, nos mercados, em benefícios públicos: a oferta de uma variada quantidade de bens e serviços, com os menores preços e a melhor qualidade possível.

Observe-se que todas as pessoas são consumidores – inclusive os empresários. E o objetivo de disponibilização de bens e serviços com boa qualidade e preços baixos é interesse de todos os consumidores, e não particularmente dos empresários. Na verdade, grande parte dos empresários preferiria não ter que competir.

Por outro lado, empresas suficientemente competitivas são capazes de sobreviver e crescer. Dessa forma, podendo gerar mais empregos e pagar melhores salários (não necessariamente porque amam os seus empregados. Mas sim porque a economia em crescimento é uma das condições que levam os empresários a terem que pagar salários maiores, mesmo desejando pagar o menos possível). Por outro lado, quanto maior o número de empresas que vão à falência, menor a necessidade de contratar mais empregados, e maior a capacidade de contratá-los, mesmo com salários em queda.

Competição e Lucro

Os estudantes de Economia, nos primeiros anos do seu curso de graduação, aprendem que, num sistema econômico em que não haja qualquer restrição à competição, o lucro das empresas tenderia para um mínimo, suficiente apenas para a sua sobrevivência e continuidade. Enquanto uma empresa monopolista consegue obter um lucro maior, produzindo relativamente menos, e cobrando um preço relativamente maior.

ECONOMISTA MILTON FRIEDMAN E O OBJETIVO DOS EMPREENDIMENTOS PRIVADOS

Foi tendo em mente, fundamentalmente, os princípios teóricos a que me referi acima, que o economista liberal Milton Friedman fez a seguinte afirmação:

“Há uma e somente uma responsabilidade social nos negócios – usar seus recursos e se engajar em atividades com o objetivo de aumentar os seus lucros permanecendo dentro das regras do jogo”.4

Imagino que Adam Smith abordaria este assunto com outras palavras. Algo assim:

“Preciso ganhar o meu sustento e da minha família e melhorar gradualmente a minha situação econômica. Mas também quero ser um cidadão útil para a sociedade. Creio que a melhor maneira como posso atender a esses meus dois objetivos demanda, antes de tudo, duas perguntas: 1. Como posso descobrir quais os bens e/ou serviços que as pessoas necessitam e pelos quais estão dispostas a pagar; 2. Quais desses bens e/ou serviços estou em condições de ofertar, com a melhor qualidade e o menor preço?”.

Os mercados podem prover, de maneira objetiva, indicadores úteis para a obtenção dessas respostas. Mas há outro aspecto importante: parece óbvio que, se a pessoa está interessada em ser efetivamente útil para a sociedade, ela não se sentirá atraída por se tornar um traficante de drogas – por mais lucrativa que possa ser essa atividade. Para Adam Smith, a “soberania do consumidor” é algo relativo, justamente porque, também no seu livro sobre Economia, ele não dispensa a moralidade. O que ele não acredita, é que a moralidade dos agentes econômicos possa ser imposta pelos governantes. 

Comércio, Competição e Moralidade, no Livro A Teoria do Sentimentos Morais

Vejamos de que forma Smith se refere à competição, no seu livro sobre ética:

“Na corrida pela riqueza, honras e preferências, a pessoa pode correr o mais forte que puder, e tensionar todos os seus nervos e músculos, a fim de superar os seus concorrentes. Mas se ele agredir, jogar no chão, qualquer um deles, a indulgência dos espectadores acaba completamente. É uma violação do ‘fair play’ que eles (os espectadores) não podem admitir. Todo homem é, para ele (o espectador imparcial), em todos os aspectos, tão bom quanto o próprio concorrente: eles não entram nesse interesse pessoal pelo qual se prefere a si mesmo em relação aos outros, e não aceitam o pretexto para a agressão”.5  

“A educação mais vulgar nos ensina a agir, em todas as ocasiões importantes, com algum tipo de imparcialidade entre nós e os outros; e mesmo o comércio comum do mundo é capaz de ajustar nossos princípios ativos a algum grau de decência”.6

Comércio, Competição e Moralidade, no Livro A Riqueza das Nações

No seu livro sobre Economia, o principal posicionamento de Smith acerca do comércio foi uma crítica ácida e enfática sobre a forma como ele era considerado pelo sistema econômico em vigor (o Mercantilismo) e pelos governantes do império inglês.

Para o Mercantilismo, a riqueza de uma nação era representada pelo tamanho do estoque de metais preciosos (ouro e prata) que ela possuísse. Isso levava o império inglês a acirrar a postura exploradora sobre as suas colônias, tratando de maximizar os superávits comerciais que mantinha no comércio com elas.

O escocês Adam Smith, além de não gostar da postura colonialista do império inglês em relação ao seu próprio país, tinha uma ideia completamente diferente sobre o que seria a riqueza de uma nação. Para ele, riqueza necessariamente precisaria incluir a superação da pobreza e da miséria, pelo menos para a maioria das pessoas.

A seguinte passagem é uma das que fornecem uma ideia da posição que ele assumiu diante dessa concepção dos governantes e do Mercantilismo sobre a riqueza e o comércio internacional:

“Fez-se com que cada nação olhasse com inveja para a prosperidade de todas as nações com as quais comercializa. E considerasse o ganho dessas nações como uma perda para ela mesma. O comércio, que deveria naturalmente ser, entre as nações, como entre os indivíduos, um traço de união e de amizade, transformou-se na mais fértil fonte de discórdia e de animosidade”.7

REFERÊNCIAS

1. Smith, Adam, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Glasgow Edition, I.ii., 26-7;
2. Lectures on Rhetoric and Belles Lettres, Glasgow Edtion, ed. J. C. Bryce, Oxford University Press, 1983;
3. Walraevens, Benoît. “Adam Smith’s Economics and the Lectures on Rhetoric and Belles Lettres: The Language of Commerce.” History of Economic Ideas 18, no. 1 (2010): 65–91;
4. Friedman, Milton. “A Friedman Doctrine: The Social Responsibility of Business Is to Increase Its Profits.” The New York Times Magazine, September 13, 1970;
5. Smith, Adam, The Theory of Moral Sentiments, Glasgow Edition, II.ii.2.1., 120;
6. Smith, Adam, The Theory of Moral Sentiments, Glasgow Edition III.3.7, 139;
7. Smith, Adam, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Glasgow Edition, iv.iii.c.9, 493.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor: 

Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

COMUNICADO:

O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.

O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.

O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.

Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.

Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.

Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.

Compartilhe!
Rolar para cima