“…as teorias que estudam o homem, não do ponto de vista do que ele é, ou parece ser, mas do ponto de vista do que ele pode chegar a ser; ou seja, do ponto de vista da sua evolução possível. Estas… são, na realidade, as doutrinas originais; ou, em todo caso, as mais antigas e as únicas que podem fazer compreender a origem esquecida da psicologia e sua significação.” — P. D. Ouspensky1
“Uma das principais razões pelas quais tão poucas pessoas compreendem a si mesmas é que a maioria dos escritores está sempre ensinando aos homens aquilo que deveriam ser; e raramente se preocupam em lhes dizer aquilo que eles realmente são.” — Bernard Mandeville2
Na postagem anterior mencionamos o entendimento relativamente usual de que Bernard Mandeville teria exercido influência significativa sobre conceitos adotados por Adam Smith, especialmente no livro A Riqueza das Nações. Antes de examinar esse tipo de entendimento, na presente postagem ainda precisaremos conhecer brevemente as visões de alguns filósofos contemporâneos de Smith sobre Mandeville.
Como Deveria Ser o Comportamento Humano. E Como Ele Efetivamente É.
Consideremos as duas citações que fizemos acima, na abertura da presente postagem.
Na primeira delas, Ouspensky observa que o interesse fundamental da psicologia nas suas origens – segundo ele, muito antigas – era a evolução possível do ser humano, e não o estado presente de consciência em que eles efetivamente se encontravam. Ouspensky destaca enfaticamente que essa evolução possível da consciência humana dependerá sempre, em grande medida, da motivação e dos esforços individuais da própria humanidade.
A segunda citação é uma crítica de Bernard Mandeville a essa visão defendida por Ouspensky. Mandeville defende posição oposta, criticando o interesse dominante sobre aquilo que os homens deveriam ser, em detrimento do interesse em compreender como eles realmente são.
Para Ouspensky, todos os seres humanos têm a possibilidade de se desenvolverem, no sentido da ética das virtudes dos grandes filósofos gregos. Ou seja, vivendo de uma certa forma, voltada para o bem de si mesmo e de outrem. Forma de vida essa que lhes asseguraria a conquista da Eudaimonia (que mais tarde passaria a ser chamada de “felicidade”, ou “florescimento”).
Mandeville, por sua vez, desprezava inteiramente essa ênfase no que os seres humanos podem vir a ser. Isso porque, para ele, nenhum ser humano é capaz de praticar a virtude, já que suas ações são sempre motivadas por vícios, particularmente o egoísmo. E segundo ele, a prática desses vícios nos mercados pode resultar em benefícios para a sociedade. Mais ainda: um eventual combate a esses vícios inspirado na religião ou na moralidade pode resultar apenas na sabotagem ao progresso material e à superação da pobreza e miséria.
Faremos, a seguir, uma breve passagem sobre pensadores contemporâneos de Adam Smith que se posicionaram um pouco antes dele, sobre esse tema.
A Natureza Moral dos Seres Humanos, de Acordo com Anthony Ashley Cooper, o 3.º Conde de Shaftesbury (1671 - 1713), Francis Hutcheson (1.694 – 1.746) e David Hume (1.711 – 1.776).
Anthony Ashley Cooper, o 3º Conde de Shaftesbury (1671 – 1713).
Mandeville se voltava destacadamente contra as ideias de Shaftesbury, o primeiro dos personagens daquela época chamados “filósofos morais sentimentalistas” (dos quais Adam Smith fazia parte), para quem a moralidade não se origina primariamente da razão, mas sim de “sentimentos”.
Anthony Ashley Cooper foi um político, escritor e filósofo inglês que considerava a benevolência essencial para a moralidade e foi o primeiro na Inglaterra a defender a tese de que o senso moral, ou consciência ética, se origina primariamente de “sentimentos”, vindo a se tornar racional apenas pelo uso e educação. Afirmava também que o homem, por meio desse senso moral, tem a capacidade inata de fazer a distinção entre certo e errado. E, segundo ele, o comportamento ético dos indivíduos é perfeitamente compatível com uma bem-sucedida e florescente sociedade comercial.3
Reverendo Francis Hutcheson (1694 – 1746)
Francis Hutcheson foi um filósofo irlandês, professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow, de 1730 até o final da sua vida, e um dos fundadores do Iluminismo Escocês. Seu pai foi Bispo da Igreja Presbiteriana e Hutcheson adquiriu um doutorado em Teologia. Em 1719 foi licenciado como pregador pela Igreja Presbiteriana Irlandesa, em Ulster. Mas sua principal atividade sempre foi como filósofo.
Hutcheson escreveu vários tratados sobre ética. A sua obra mais conhecida é “A System of Moral Philosophy” (“Um Sistema de Filosofia Moral”), publicada em 1755. Ele foi professor de filosofia moral de Adam Smith em Glasgow, onde, seis anos depois do seu falecimento, essa função viria a ser exercida pelo próprio Smith.
Na sua Filosofia Moral, Hutcheson reafirma e aprofunda a tese de Shaftesbury de que os valores morais são provenientes de “sentimentos internos”, e reforça ainda mais a importância da benevolência (conceito filosófico semelhante ao amor Cristão), na sua filosofia.
Vimos que tanto Hobbes quanto Mandeville tinham argumentado que todas as ações humanas são motivadas pelo egoísmo. Por isso, para Mandeville, rigorosamente as ações humanas nunca são virtuosas. Hutcheson concorda que o interesse pessoal é sempre incompatível com a virtude (embora a prudência, a temperança, o trabalho honesto, a higiene, e outras atitudes aceitas pelo homem civilizado, mesmo em parte motivadas pelo interesse pessoal, também sejam merecedoras de aprovação moral). Mas trata de evidenciar o erro de Mandeville procurando demonstrar que a benevolência desinteressada é também a fonte motivadora de muitas das ações humanas.4
Ele reconhece que a benevolência natural do homem muitas vezes pode ser superada pelo egoísmo. Mas afirma que o senso moral é capaz de fazer prevalecer a benevolência em suas ações e dessa forma agir em prol do que é melhor para todos, de forma pessoalmente desinteressada. A benevolência seria inata nos indivíduos, e por isso os sentimentos morais internos se transformam em ideias, aptas a dirigirem a ação humana ética.
Para Hutcheson, o egoísmo como fonte motivadora única da ação humana, tal como descrito por Hobbes e Mandeville é, na verdade, fruto de um estado não cultivado da natureza humana. No estado cultivado a mente humana se encontra num processo de desenvolvimento e aprendizado. E, de fato, somente as pessoas que cultivam esse estado estão verdadeiramente seguindo a sua natureza essencial, tal como foi desenhada por Deus. Para essas pessoas, a ação amorosa, beneficente, desinteressada, é uma possibilidade real.
Embora reconhecendo que a cooperação e interdependência são necessárias até para a sobrevivência humana, Hutcheson repudia também o entendimento de que o egoísmo seja a única motivação para que os indivíduos busquem essas relações. Segundo ele, os seres humanos têm outras motivações para isso, que fazem parte da sua natureza, que não buscam apenas vantagens ou prazeres, mas também certas coisas mais elevadas, que neles dependem da associação com outras pessoas. Hutcheson sequer poderia imaginar que qualquer criatura humana pudesse estar suficientemente feliz num estado que não inclua amor e amizade por outras pessoas.
A afirmação de Hutcheson de que o “estado cultivado de consciência” é uma possibilidade ao alcance de todos os indivíduos, é de crucial importância, não somente para compreender as diferentes visões sobre a chamada “ciência da natureza humana” – particularmente no século XVIII. Mas também, como indicaremos mais adiante, para ajudar a demonstrar que não houve nenhuma contradição entre as obras ética e econômica de Adam Smith.
David Hume (1711 – 1776)
Já vimos que David Hume, nascido em Edimburgo, na Escócia, é até hoje considerado um dos mais importantes filósofos morais da humanidade, tendo, inclusive, exercido significativa influência sobre o pensamento de Immanuel Kant. Hume foi contemporâneo e amigo de Adam Smith (ambos foram alunos de Hutcheson) e já era um Filósofo Moral de grande prestígio quando Smith publicou o seu livro A Teoria dos Sentimentos Morais.
No que concerne ao entendimento acerca da fonte primária da aprovação e desaprovação moral, não há dúvida de que Hume fez parte do pequeno grupo que viria a ser chamado de “filósofos sentimentalistas”. Aqueles que acolheram a posição de Shaftesbury e Hutcheson de que a fonte primária dos valores morais são sentimentos.
Hume lê Hobbes como um pensador brilhante, mas profundamente equivocado sobre a natureza humana. Ele o respeita como filósofo e reconhece sua importância histórica, mas rejeita suas teses centrais. Concorda com Hobbes em um ponto: a razão é fraca. Hobbes diz que a razão é instrumento, não guia moral. Hume concorda.
Para Hume, a razão não pode fundamentar a moralidade, poia ela é “escrava das paixões”. Mas a moralidade vem dos sentimentos, e não da razão nem do medo, como queria Hobbes. Para Hume, Hobbes levantou questões importantes, mas as respondeu de forma errada.5
Hume era ateu, ou, pelo menos, agnóstico. Ele afirma que a moralidade é natural, deriva de sentimentos humanos universais, e não depende de Deus. Ele não aceita a visão de Hutcheson de que exista um “sentido moral” inato. E cria sua própria explicação por meio da “empatia”. Para Hume, a empatia é uma característica natural dos seres humanos, que são também naturalmente sociáveis e cooperativos.
Isso aparece no modo como Hume descreve o que chamou de “moral spectator” (“espectador moral”), que percebe ações e as aprova ou desaprova, com base em sentimentos compartilhados. Para Hume, Hobbes exagera o conflito e ignora a sociabilidade natural.
Hume usa Hobbes como “ponte” para discordar de Mandeville. E afirma que Mandeville levou ao extremo o erro de Hobbes. Ele coloca Hobbes e Mandeville no mesmo “campo” filosófico: o do egoísmo moral. E, a partir disso, ele critica ambos, usando os mesmos argumentos. Mas aplica a Mandeville críticas ainda mais fortes.
Os filósofos mencionados nessa postagem são os contemporâneos de Adam Smith que exerceram influências sobre a construção da sua filosofia moral. E, particularmente, a sua opinião acerca das visões pessimistas de Hobbes e Mandeville sobre a natureza ética do ser humano. Mas aqui também Smith faz valer a sua destacada característica por meio da qual se beneficia das visões de inúmeros personagens para a construção da sua obra, sempre apresentando alguma discordância ou acrescentando algo relevante a cada uma dessas visões. E, mais importante ainda, as reúne e sistematiza num conjunto de grande amplitude e coerência.
Na próxima postagem, finalmente, iremos abordar as opiniões do próprio Adam Smith sobre as visões de Hobbes e de Mandeville a respeito da natureza humana. Veremos que isso ajudará a compreender a conexão do livro A Riqueza das Nações com o restante da obra de Smith. Especialmente com o livro A Teoria dos Sentimentos morais.
REFERÊNCIAS
1. Ouspensky, P. D., “The Psychology of Man´s Possible Evolution” (“Psicologia da Evolução Possível ao Homem”) – Vintage Books – a Division of Random House – New York – Pg. 06;
2. Mandeville, Bernard. An enquiry into the origin of moral virtue – The Introduction. In: Mandeville, Bernard. The fable of the bees – Penguin Classics, 1989;
3. Shaftesbury, Anthony Ashley Cooper. Characteristicks of men, manners, opinions, times. Edited by Douglas Den Uyl. Indianapolis: Liberty Fund, 2001. (Obra original publicada em 1711);
4. Hutcheson, F. (2004). An inquiry into the origin of our ideas of beauty and virtue (W. Leidhold, Ed.). Liberty Fund. (Original work published 1725);
5. Hume, David. Tratado da natureza humana. Tradução de Débora Danowski. São Paulo: Editora UNESP, 2001.
Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.
Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor:
Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com
COMUNICADO:
O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.
O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.
O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.
Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.
Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.
Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.



