O Livro “A Riqueza das Nações” é Amoral? (Segunda Parte)

“Até o final do século XVIII, a maioria das pessoas nos países Cristãos acreditava que Deus tinha ordenado uma organização hierárquica para a sociedade na qual as pessoas verdadeiramente virtuosas ocupavam posições de riqueza, ou poder, no topo; e os pobres, no piso.”Walter Trattner1

“Se (o livro) A Riqueza das Nações fosse menos do que um romance em suas teorias de dinheiro, comércio, ou valor, teria sido genuinamente revolucionário em sua visão da pobreza e sua atitude com relação aos pobres.”Gertrude Himmelfarb2

Vamos prosseguir apontando e tecendo alguns comentários sobre valores morais descritos por Adam Smith no livro A Teoria dos Sentimentos Morais que fazem uma ponte para o livro A Riqueza das Nações.

Na postagem anterior afirmamos que, diferentemente do que não raramente se imagina, Adam Smith nunca considerou que vícios podem ser transformados em benefícios públicos. Pelo contrário, ele foi enfático, por meio de várias passagens do livro A Teoria dos Sentimentos Morais, na afirmação de que os vícios são, sempre, moralmente repulsivos. Vamos citar apenas um desses exemplos:

“Nenhuma especulação deste tipo, no entanto, por mais profundamente que possa estar enraizada na mente, poderia diminuir nossa aversão natural ao vício, cujos efeitos imediatos são tão destrutivos, e cujos efeitos remotos são muito distantes para serem rastreados pela imaginação”.3

O que Smith defendeu – até mesmo considerando como uma virtude, embora inferior à Benevolência – foi o legítimo interesse pessoal (“self-love”). Segundo ele, o interesse de cada indivíduo em melhorar de vida, sem causar danos a outrem, pode ser transformado, particularmente por meio da sua atuação nos mercados, em benefício público.

Essa correta visão de Smith sobre “egoísmo” é um exemplo de valores contidos no livro A Teoria dos Sentimentos Morais que proporcionam suporte moral para o livro A Riqueza das Nações. Vamos prosseguir examinando outros. 

Riqueza e Felicidade no Livro A Teoria dos Sentimentos Morais

Nas postagens que fizemos nesse Blog, nos dias 13 e 23 de março de 2026, apontamos a evidência de que a principal motivação de Adam Smith como escritor e professor de filosofia moral, ao longo de toda a sua vida adulta, foi contribuir para a felicidade de todas as pessoas. E essa motivação tinha origem em algo de profundo significado para ele. Simplesmente, a sua concepção pessoal acerca do próprio Deus:

“A felicidade da humanidade, como também de todas as outras criaturas racionais, parece ter sido o propósito original pretendido pelo “Autor da Natureza” quando as trouxe à existência. Nenhum outro fim parece merecedor daquela suprema sabedoria e divina benignidade que nós necessariamente atribuímos a Ele; e essa opinião, a que somos levados pela consideração abstrata das suas infinitas perfeições, é ainda mais confirmada pelo exame dos trabalhos da Natureza, que parecem todos pretenderem promover a felicidade, e guardar contra a miséria”.4

Sabe-se que Smith se refere várias vezes a Deus no livro A Teria dos Sentimentos Morais. E, em parte delas, como “o Autor da Natureza”. Portanto, não poderia ser mais claro o entendimento de que, para ele, promover a felicidade de todos os seres humanos seria um propósito original do próprio Deus.

Contudo, fica implícito também nesses comentários de Smith que, no seu entendimento, cabe aos seres humanos uma contribuição indispensável para a realização desse propósito divino. De que forma? Vejamos a resposta de Smith:   

“Mas, agindo de acordo com as determinações das nossas faculdades morais, nós necessariamente perseguimos os meios mais efetivos para promover a felicidade da humanidade; e, portanto, pode ser dito, em certo sentido, cooperar com a Divindade, e viabilizar, dentro das nossas possibilidades, o plano da providência. Agindo de outra forma, pelo contrário, nós parecemos obstruir, em alguma medida, o esquema que o Autor da Natureza estabeleceu para a felicidade e perfeição do mundo, e declaramos a nós mesmos, se posso dizer assim, em alguma medida os inimigos de Deus”.5

Ou seja, para Smith, a forma de os seres humanos colaborarem com o propósito divino de assegurar a felicidade para todos seria “agindo de acordo com as determinações das nossas faculdades morais”. Mas, na sua Filosofia Moral, quais são essas determinações?

A resposta é: por meio do Espectador Imparcial. “É um poder mais forte, um motivo mais potente, que se faz presente em todas as ocasiões. É razão, princípio, consciência, o habitante do peito, o homem interno, o grande juiz e árbitro da nossa conduta”.6

Essa “felicidade” que Smith tinha em mente era também muito próxima da chamada “eudaimonia”, dos grandes filósofos da Grécia antiga. Como já vimos anteriormente, alguns desses filósofos consideravam que a riqueza material não tinha qualquer relevância para a eudaimonia; outros achavam que a sua importância não estava entre as mais relevantes; e todos concordavam que o deslumbramento pelo acúmulo de riquezas era fonte de deterioração moral e infelicidade.

Ética das Virtudes e Moralidade Autônoma

A eudaimonia dos filósofos gregos fazia parte da sua chamada “ética das virtudes”. Ou seja, a felicidade não deve ser perseguida diretamente. Ela é a consequência final de uma forma de vida virtuosa. O conceito de “virtudes” dos grandes filósofos gregos equivalia aos valores éticos da filosofia moral de Adam Smith. Mas cada um dos filósofos gregos prescrevia definições – não inteiramente consensuais – sobre o que seriam as virtudes. As virtudes eram previamente definidas. Já para Smith, os valores morais resultam necessariamente de uma moralidade autônoma, que se aplica a cada circunstância contingente da vida, e são “inspirados” na hierarquia mais elevada do Espectador Imparcial.

No livro A Teoria dos Sentimentos Morais, Smith expõe claramente a sua visão de que a conquista da riqueza material não seria o mais importante para a felicidade (eudaimomia). Mais que isso, o fascínio pelo acúmulo de riquezas materiais seria uma das principais fontes da deterioração moral e sabotadora da eudaimonia:

“Esta disposição para admirar, e quase adorar, o rico e o poderoso, e para desprezar, ou, pelo menos, negligenciar pessoas de condição pobre… é, ao mesmo tempo, a grande e mais universal causa da corrupção dos nossos valores morais. A riqueza e grandeza são frequentemente consideradas com o respeito e admiração que são devidas somente à sabedoria e à virtude”.7

Pobreza e Felicidade no Livro A Teoria dos Sentimentos Morais

Atentemos para o segmento final da citação que fizemos acima (Referência 4):

“Nenhum outro fim parece merecedor daquela suprema sabedoria e divina benignidade que nós necessariamente atribuímos a Ele; e essa opinião, a que somos levados pela consideração abstrata das suas infinitas perfeições, é ainda mais confirmada pelo exame dos trabalhos da Natureza, que parecem todos pretenderem promover a felicidade, e guardar contra a miséria”.

Ou seja, para Smith, Deus não teve somente o propósito original de proporcionar a felicidade para todos os seres humanos. Mas também guardá-los contra a miséria. Portanto, considerar que a riqueza material não é a causa mais importante para a felicidade humana, e que o fascínio pelo seu acúmulo interminável é uma das principais fontes de deterioração moral e infelicidade, de forma alguma implica que miséria e pobreza material sejam moralmente aceitáveis. E, menos ainda, louváveis e necessárias.

No livro A Teoria dos Sentimentos Morais Adam Smith discordou enfaticamente da visão altamente negativa predominante na sua época, tanto pela economia (mercantilismo), quanto pelas religiões, sobre a pobreza e os pobres. Antes de procurar demonstrar, no livro A Riqueza das Nações, qual a melhor forma de conseguir a superação da pobreza e da miséria, no livro A Teoria dos Sentimentos Morais Smith já havia desafiado, de forma revolucionária para a sua época, a visão negativa, preconceituosa e deletéria que predominava contra os mais pobres. Inclusive pelos clérigos das religiões organizadas.

Riqueza Material e Felicidade no Livro A Riqueza das Nações

Parece-nos que até hoje ainda se encontram, entre os comentadores da obra de Adam Smith, alguns para quem ele teria mudado muito o seu pensamento sobre a relação entre riqueza material e felicidade, ao longo dos 17 anos que separaram as publicações dos livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Segundo esse entendimento, que até algumas décadas atrás não era raro, a visão de Smith sobre esse tema teria se tornado muito mais “madura” e “pragmática”, ao longo do período entre a publicação dos dois livros.

Estamos convencidos que esse é um dos maiores erros de interpretação sobre a obra de Adam Smith. Temos a convicção pessoal de que o pensamento dele sobre esse tema permaneceu essencialmente o mesmo, até a sua morte. O que mudou foram os objetivos das duas obras e a sua abordagem metodológica.

O livro A Teoria dos Sentimentos Morais é sobre Ética. A abordagem sobre riqueza material nesse livro é filosófica. Nele, Smith explicou claramente as razões pelas quais a superação da pobreza e da miséria é uma exigência moral. E necessária, também, tendo-se em vista o objetivo da eudaimonia. Nesse livro, ele examina as motivações e o comportamento humano tal como eles são, na prática. Mas, com ênfase muito maior na consideração de como deveriam ser, tendo em vista a felicidade individual e coletiva.

Já o livro A Riqueza das Nações é sobre a melhor forma por meio da qual as nações podem superar a pobreza e a miséria, com ênfase muito maior nas motivações e atitudes dos agentes econômico, tal como elas costumam ser, na prática. Portanto, a motivação de superar a pobreza, no livro A Riqueza das Nações, pode ser considerada de natureza moral, tanto quanto o foi no livro A Teoria dos Sentimentos Morais.

Não obstante, os princípios morais demandados para viabilizar esse objetivo não são tão elevados quanto o ideal descrito no livro sobre ética. Pois no livro A Teoria dos Sentimentos Morais Smith chega a examinar o que poderia ser chamado de perfeição moral (agir inteiramente de acordo com as determinações do Espectador Imparcial. O que significa agir motivado fundamentalmente pela Benevolência – equivalente filosófico ao amor Cristão).

Como já vimos, no livro A Riqueza das Nações Smith reconhece que não é realista esperar que os agentes econômicos se comportem motivados pela Benevolência, servindo de forma inteiramente desinteressada. Mas afirma que nem tudo estará perdido, se pelo menos prevalecer o interesse pessoal ética e legalmente legítimo (“self-love”, “self-interest”).

Segundo ele, o que inviabiliza o funcionamento satisfatório da “economia da liberdade natural” é o egoísmo predatório (“selfishness”). E ele reconhece, obviamente, que grande parte dos agentes econômicos tende a agir motivada pelo por esse tipo de egoísmo. Portanto, a existência de uma Justiça Comutativa e Penal, efetivamente implementada (“enforced”), se torna indispensável para que esse sistema possa sobreviver. Além disso, a abordagem desse segundo livro pretende ser científica. Esse é o motivo pelo qual Adam Smith costuma ser chamado “o fundador da ciência econômica”.

Ou seja, no livro sobre ética – um ramo da filosofia moral – não deveria surpreender que ele tenha considerado temas da metafísica. Nesse livro, ele se sentiu inteiramente à vontade, não somente para fazer dezenas de referências a Deus (algumas vezes, como “o autor da natureza”); mas também para apontar Deus como causa primeira de vários fenômenos sociais e morais necessários para a felicidade humana.

A palavra “felicidade” também aparece dezenas de vezes no livro A Teoria dos Sentimentos Morais. E não poderia ser diferente, porque nesse livro, a felicidade depende, fundamentalmente, de uma forma de vida ética, autônoma. Que, por sua vez, demanda sabedoria, conhecimento superior, autoconhecimento (diferente de erudição). 

No livro A Riqueza das Nações não se encontra uma única referência a Deus. E há apenas três referências às palavras “feliz” ou “felicidade”. Há duas explicações para isso: primeira, a abordagem científica só admite explicações empiricamente observáveis, ou passíveis de negação; segunda, uma vida ética é mais importante para a eudaimonia do que a riqueza material.

Vale a pena conhecer as referências às palavras “feliz” e “felicidade”, no livro sobre Economia:

REFERÊNCIA À PALAVRA FELIZ (HAPPY):

“Nenhuma sociedade pode certamente ser florescente e feliz se a maior parte dos seus membros são pobres e miseráveis”.8  

REFERÊNCIAS À PALAVRA FELICIDADE (HAPPINESS):

“Em que consistia a felicidade e perfeição de um homem, considerado não somente como um indivíduo, mas como um membro de uma família, de um estado, e da grande sociedade da espécie humana, era o objeto que a filosofia moral antiga se propunha a investigar” (dando continuidade a essa mesma passagem, Smith volta a usar por mais três vezes a palavra felicidade)”.9

“Uma revolução da maior importância para a felicidade pública foi, dessa forma, provocada por duas ordens diferentes de pessoas, que não tinham a menor intenção de servir ao público”.10  

Defesa dos Mais Pobres, no Livro A Riqueza das Nações

É enfática a posição de Smith em defesa dos mais pobres, no livro A Riqueza das Nações. Mas nesse livro ele não se limita a defendê-los. Ele volta a fazer críticas ácidas à atitude dos mais ricos, na sua relação com os pobres, como já fizera no livro A Teoria dos Sentimentos Morais.

Vejamos algumas das passagens do livro, a esse respeito:

“Dever-se-á considerar esta melhoria da situação das camadas mais baixas da sociedade como uma vantagem ou como um inconveniente para a sociedade? A resposta é tão óbvia, que salta à vista. Os criados, trabalhadores e operários dos diversos tipos representam a maior parte de toda grande sociedade política. Ora, o que faz melhorar a situação da maioria nunca pode ser considerado como um inconveniente para o todo. Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz, se a grande maioria de seus membros forem pobres e miseráveis. É apenas uma questão de justiça. Além disso, que aqueles que alimentam, vestem e hospedam todo o povo, tenham uma participação correspondente na produção de seu próprio trabalho, que lhes permitam ser toleravelmente bem alimentados, vestidos e alojados”.11

No Capítulo VIII da Parte I do livro, intitulado “Sobre os Salários dos Trabalhadores”, Smith afirma que os patrões se combinam para pagar os menores salários, e seu poder de barganha é maior que o dos trabalhadores. Mesmo porque eles recebem a proteção da lei. Para ele, na sua época e região, a lei sempre favorecia os empresários, em detrimento dos trabalhadores.12

REFERÊNCIAS

1. Trattner, Walter, “From Poor Law to Welfare State”. New York: Free Press, 1994, 18;
2. Himmelfarb, Gertrude, “The Idea of Poverty”, New York, Alfred A. Knopf,1984, 46, 62;
3. Smith, Adam. The Theory of Moral Sentiments. Glasgow Edition, I.ii.3.4., 36;
4. Smith, Adam. The Theory of Moral Sentiments. Glasgow Edition, III.5.7.,166;
5. Smith, Adam. The Theory of Moral Sentiments. Glasgow Edition, III.5.7.,166;
6. Smith, Adam. The Theory of Moral Sentiments. Glasgow Edition, III.5.7.,166;

7. Smith, Adam. The Theory of Moral Sentiments, Glasgow Edition, III.3.4, 137;
8. Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Glasgow Edition,, I.viii.36, 96;

9. Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Glasgow Edition, V.i.f.30, 771;
10. Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Glasgow Edition, III.iv.17, 422;
11. Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Glasgow Edition, I.viii. 36, 96;
12. Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Glasgow Edition, especialmente I.viii.9. a I.viii.15, 83-6.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor: 

Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

COMUNICADO:

O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.

O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.

O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.

Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.

Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.

Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.

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