“Finalmente, merece um pouco mais de crédito o argumento da economista Vivienne Brown (“Adam Smith Discourse” – London, Routledge, 1994, págs. 43-54 e 162-4) de que o discurso no livro A Teoria dos Sentimentos Morais era moral e no A Riqueza das Nações era amoral.” — Samuel Fleichacker1
A citação acima é apenas um exemplo de que parte significativa dos respeitáveis estudiosos contemporâneos da obra de Adam Smith ainda fazem uma leitura sobre a moralidade (ou amoralidade) do livro A Riqueza das Nações de forma separada do conteúdo do livro A Teoria dos Sentimentos Morais.
O filósofo e profícuo escritor Samuel Fleichacker é, merecidamente, um dos mais prestigiados conhecedores e admiradores da obra de Adam Smith. Ele discorda das opiniões de que o livro A Riqueza das Nações é amoral, mas o faz de modo um tanto vacilante. Pois, além de ter considerado que o argumento de Vivienne Brown “merece um pouco mais de crédito”, antes de explicar por que discorda dela, ele o faz com a seguinte ressalva:
“Mas é justo dizer que preocupações morais são atenuadas no livro A Riqueza das Nações. Não somente a maior parte da análise no livro presume que os agentes agirão meramente para maximizar ganhos materiais, mas há um número de pontos onde se poderia esperar que fossem levantadas questões morais e, no entanto, somente questões pragmáticas são tidas em conta – Samuel Fleichacker”.2
Isso ilustra e reforça a minha convicção pessoal de que a moralidade do livro A Riqueza das Nações não pode ser claramente reconhecida por meio de uma leitura desconectada do livro A Teoria dos Sentimentos Morais.
Esclarecimento Importante:
Antes de avançarmos na apresentação do que consideramos evidências de que o livro A Riqueza das Nações não é amoral, é conveniente reforçarmos um esclarecimento: argumentar sobre a moralidade (ou amoralidade) da teoria contida nesse livro, não equivale a argumentar sobre a moralidade do capitalismo.
Devemos relembrar que Adam Smith jamais escreveu ou pronunciou a palavra “capitalismo”; nem a expressão “Laissez-faire, laissez-passer” (“Deixai fazer, deixai passar”. Expressão usualmente entendida como uma recomendação em favor da liberdade de produzir, trabalhar e empreender, sem o controle ou a burocracia do governo). Nossa argumentação também não será sobre a moralidade da teoria econômica moderna.
A tese de moralidade que analisaremos aqui é a do sistema econômico que o próprio Smith chamou de “economia da liberdade natural”.3 Esse é o sistema econômico proposto por ele no livro A Riqueza das Nações.
Somente bem mais adiante pretendemos apresentar uma reflexão sobre as eventuais concordâncias ou discordâncias das ideias e proposições contidas no livro A Riqueza das Nações, com a teoria econômica e o capitalismo contemporâneos, inclusive sob a ótica da moralidade.
Com Base na Filosofia Moral de Qual Filósofo o Livro A Riqueza das Nações Seria Moral ou Amoral?
Publicamos as dez últimas postagens desse blog com o seguinte título: “O Livro A Riqueza das Nações como Tema Inseparável da Unidade da Obra de Adam Smith”. Ou seja, já dedicamos um espaço substancial para demonstrar que os dois livros de Adam Smith publicados em vida fazem parte de uma mesma obra – sobre Filosofia Moral. No nosso entendimento, isso permitiu que o primeiro desses livros, que aborda o tema da Ética, já incluísse a consideração dos valores morais que deveriam fundamentar moralmente o segundo livro.
O argumento de que o sistema econômico “da liberdade natural” defendido por Smith no livro A Riqueza das Nações é moral ou amoral deveria responder, necessariamente, à seguinte pergunta: moral ou amoral tendo como referência qual Filosofia Moral? A de Platão? A de Aristóteles? A dos estoicos? A de Bernard Mandeville? A de Francis Hutcheson? A de David Hume? A de Immanuel Kant?…
O que nos propomos a fazer aqui é apontar evidências de que o livro A Riqueza das Nações tem fundamentos morais adotando como referência, principalmente, a Filosofia Moral do próprio Adam Smith.
Frente a essa observação, alguns dos meus improváveis leitores poderiam argumentar que não consideram a Filosofia Moral do próprio Adam Smith uma boa referência. Eu acolheria esse argumento. Só poderia ressaltar que respeitados scholars contemporâneos passaram a considerar que, no tema da Ética, Adam Smith teria se situado bem à frente de David Hume. É sabido que Hume, por sua vez, exerceu considerável influência sobre a Filosofia Moral de Immanuel Kant. D. D. Raphael considera que John Rawls não leu atentamente a obra de Smith sobre Ética, por isso formou uma impressão distorcida sobre ela.4
Há décadas tem sido crescente o número de filósofos a expressarem a opinião de que a Filosofia Moral de Adam Smith pode trazer uma contribuição relevante para alguns dos mais importantes debates contemporâneos, particularmente sobre consciência individual e Ética.
Valores descritos no livro a Teoria dos Sentimentos Morais que Supostamente Deveriam Prover Suporte Moral à Teoria Exposta no livro A Riqueza das Nações
EGOÍSMO, BENEVOLÊNCIA, BENEVOLÊNCIA UNIVERSAL, OIKEIÔSIS:
Lembremos que, segundo Bernard Mandeville, todos os seres humanos são incapazes de praticar qualquer virtude. Isso porque, na opinião dele, não pode haver virtude em qualquer sentimento ou atitude motivado pelo interesse pessoal. Contudo, ele argumenta que vícios individuais podem ser transformados, por intermédio dos livres mercados, em benefício público.
Francis Hutcheson, que foi professor de Filosofia Moral de Adam Smith, concordou com Mandeville quanto ao argumento de que a virtude é incompatível com o interesse pessoal. Mas discordou de que vícios privados podem ser transformados em benefícios públicos. Hutcheson defendia que todas as virtudes derivam da Benevolência. Para ele, virtude pessoal é aquilo que aumenta a felicidade alheia. O critério moral é o bem público, não o interesse individual. Benevolência é o sentimento que torna possível a Beneficência (ações motivadas exclusivamente pela intenção de servir a outrem, de forma absolutamente desinteressada). Benevolência universal é quando esse sentimento se estende a toda a humanidade.
Segundo Hutcheson, a Beneficência, o serviço a outrem de forma desinteressada estaria ao alcance dos seres humanos. Mas exigiria uma “natureza humana cultivada”.
Adam Smith discordou enfaticamente de aspectos da filosofia moral de Bernard Mandeville e Thomas Hobbes, referindo-se a eles, no livro A Teoria dos Sentimentos Morais, como “Sistemas Licenciosos”.
Adam Smith concordou com Hutcheson em relação ao argumento de que a Benevolência é a virtude suprema. Para ele, o Espectador Imparcial, na sua hierarquia mais elevada, não aprova serviços a outrem motivados por interesse pessoal.
Referindo-se ao seu próprio sistema de Filosofia Moral, Smith afirma que existem dois tipos de virtudes: 1) As que contribuem para a felicidade (Eudaimonia) do próprio indivíduo em questão; 2) As que contribuem para a felicidade de outrem. Na primeira categoria, a principal virtude é a Prudência; na segunda categoria, a principal virtude é a Benevolência.
Benevolência e Oikeôsis
A oikeôsis é um conceito da filosofia grega antiga segundo o qual a benevolência, o afeto, o amor, que cada ser humano sente pelos demais, vai se tornando mais forte à medida que se desloca de pessoas distantes para as mais próximas – membros da família, amigos, pessoas conhecidas.
Os estoicos defendiam que o sábio deveria ser capaz de superar a oikeôsis e praticar a benevolência universal, ou cidadania universal, por meio da qual essa beneficência se estende, de modo indiferenciado, a todos os seres humanos do universo. Ou seja, para o sábio a beneficência universal deve ser capaz de obliterar a oikeôsis.
Smith afirma que, em princípio, a Benevolência Universal é profundamente louvável:
“Embora as nossas efetivas boas ações raramente possam ser estendidas a qualquer sociedade mais ampla que aquela do nosso próprio país, a nossa boa vontade não é circunscrita por quaisquer linhas divisórias, podendo abraçar a imensidão do universo”.5
Mas, ao final, ele considera que Benevolência Universal é algo ao alcance somente de Deus:
“A administração do grande Sistema do universo, contudo, o cuidado com a felicidade universal de todos os seres racionais e sensíveis, é responsabilidade de Deus, e não do homem. Ao homem é alocado um departamento muito mais humilde, mas muito mais adequado à fraqueza dos seus poderes, e à estreiteza da sua compreensão: o cuidado com a sua própria felicidade, da sua família, dos seus amigos, do seu país”.6
Ao alcance da humanidade se encontraria, na prática, a Oikeôsis. Para Adam Smith, esse gradual enfraquecimento da benevolência à medida que nos distanciamos para círculos mais distantes não somente é um fato natural, mas também cumpre funções importantes. Pois a benevolência vai se tornando mais débil à medida que, na prática, temos menos condições de exercitá-la. Ou seja, temos capacidade efetiva maior de ajudar às pessoas de quem estamos mais próximas e a quem conhecemos melhor.
A Oikeôsis Estoica e a “Ordo Caritatis” de Tomás de Aquino
Na Suma Teológica de Tomás de Aquino o conceito de “Ordo Caritatis” parece muito semelhante ao de “oikeôsis”, e à maneira como os estoicos a consideravam. Segundo Aquino, a caridade deve ser ordenada conforme a proximidade ao fim último, que é Deus. Ele estabelece uma hierarquia do amor baseada em vínculos espirituais, naturais, morais e circunstanciais. Argumenta que devemos amar mais aqueles que estão mais próximos de nós, como parentes, e aqueles que são bons. Sem, contudo, excluir a obrigação de amar o próximo de maneira universal.
A Importância do Legítimo Interesse Pessoal (Self-Love) para Adam Smith, Diferente do Egoísmo Predatório (Selfishness)
Como já enunciamos anteriormente, Smith atribuía muita importância, também, a atos motivados exclusivamente pelo interesse pessoal, praticados sem causar danos a terceiros e respeitando o regramento da justiça comutativa e penal. Ele considerava que esses atos também podem ser considerados como virtude.
Conforme dissemos em postagens anteriores, essa motivação de todos os seres humanos de se empenharem em conquistar a própria sobrevivência, e a melhoria de condições de vida para si mesmo, é aceita como válida por todos os filósofos morais – e até mesmo por importantes teólogos do Cristianismo.
Mas Smith aponta um motivo pelo qual esse tipo de interesse pode ser não apenas aceitável, mas também virtuoso – embora numa categoria inferior à da Benevolência. É que, para ele, esse tipo de motivação movida apenas pelo legítimo interesse pessoal pode ser transformado em benefícios para toda a sociedade. Foi isso que o levou à metáfora da “mão invisível”, à qual já nos referimos em postagens anteriores, mas à qual retornaremos mais adiante.
Nas próximas postagens continuaremos a analisar outras referências constantes do livro A Teoria dos Sentimentos Morais que proveram fundamentos morais para o livro A Riqueza das Nações.
REFERÊNCIAS
1. Fleichacker, Samuel, “On Adam Smith´s Wealth of Nations – A Philosophical Companion” – Pricenton University Press, 48;
2. Fleichacker, Samuel, “On Adam Smith´s Wealth of Nations – A Philosophical Companion – Princenton University Press, 2004, 50;
3. Smith, Adam, “A Riqueza das Nações”, IV.ix.51, 687-8;
4. Ver, por exemplo, a opinião do conceituado filósofo Gilbert Harman, na palestra pública intitulada “Moral Agent and Impartial Spectator”, que realizou na Universidade de Kansas, em 1986;
5. Smith, Adam, “A Teoria dos Sentimentos Morais”, VI.ii.3.1, 235;
6. Smith, Adam, “A Teoria dos Sentimentos Morais”, VI.ii.3.6, 237.
Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.
Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor:
Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com
COMUNICADO:
O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.
O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.
O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.
Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.
Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.
Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.



