O Livro “A Riqueza das Nações” como Tema Inseparável da Unidade da obra de Adam Smith (Nona Parte)

“É por isso é que sentir muito pelos outros e pouco por nós mesmos, conter nosso egoísmo e alimentar nossos afetos benevolentes, constitui a perfeição da natureza humana; que só pode produzir na humanidade aquela harmonia de sentimentos e paixões que consiste em toda a graça e decoro. Assim como amar o próximo como amamos a nós mesmos é a grande lei do Cristianismo, o grande preceito da natureza é amar a si mesmo como amamos ao próximo. Ou, o que vem a ser a mesma coisa, como o nosso próximo é capaz de nos amar” — Adam Smith 1

A adequada compreensão das palavras Sympathy, Propriety, Self-Love, Self-Interest e Selfishness (no original em inglês), na obra de Adam Smith, é de importância crucial para que se possa compreender as conexões entre os livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Esse cuidado precisa ser ainda maior quando se faz a tradução para o português brasileiro. Vamos examinar brevemente esses significados.

Sympathy

Na época de Smith não existia na língua inglesa a palavra “empathy” (empatia). Por outro lado, “simpatia” não é a tradução adequada da “sympathy” de Adam Smith para o português contemporâneo.

O significado de “sympathy” no inglês atual é algo como: piedade, compreensão, compaixão, solidariedade, comiseração, pena, pêsame, condolência. Mas, segundo Adam Smith:

“Piedade e compaixão são palavras apropriadas para significar os nossos sentimentos de solidariedade com a tristeza de outros. Embora o seu significado fosse, talvez, originalmente o mesmo, sympathy pode agora, contudo, sem muita impropriedade, ser usado para denotar os nossos sentimentos de solidariedade com qualquer tipo de “passion” (sentimento)”.2

Os Editores da Glasgow Edition do livro A Teoria dos Sentimentos Morais, D. D. Raphael e A. L. Macfie, fazem o seguinte comentário sobre essa definição de Adam Smith:

“A definição de Smith, de uma amplitude pouco usual para o conceito de sympathy, precisa ser levada em conta cuidadosamente porque alguns scholars, mais familiarizados com a sua Economia do que com a sua Filosofia Moral, enganosamente consideraram sympathy como sendo um sinônimo de Benevolência, e disso inferiram que o livro A Teoria dos Sentimentos Morais trata com o lado altruístico da conduta humana, e o livro A Riqueza das Nações, com o seu lado egoísta”.3

Portanto, não se trata apenas de que o significado de “sympathy” para Smith não é o que é usualmente atribuído a essa palavra na língua inglesa. Mas também de que o não entendimento desse fato contribuiu para compreensões erradas sobre o conteúdo dos dois livros (inclusive o chamado “Adam Smith Problem”).

Nos dicionários de inglês para português brasileiro em geral se traduz a palavra “sympathy” por “simpatia”. E o significado de “simpatia” nos dicionários do português brasileiro é:

“Simpatia (do grego Sympátheia): 1. Tendência ou inclinação que reune duas ou mais pessoas; 2. Relações entre pessoas que instintivamente se sentem atraídas entre si; 3. Sentimento caloroso e espontâneo que alguém experimenta em relação a outrem; 4. Primeiros sentimentos de amor; 5. Faculdade de compartir as alegrias ou tristezas de outrem; 6. Atração que alguma coisa ou idéia exerce sobre alguém”.

Portanto, a palavra “simpatia” no português brasileiro também não expressa adequadamente o real significado de “sympathy” na obra de Smith.

É comum ler ou ouvir no Brasil a palavra “sympathy” na obra de Adam Smith ser traduzida por “empatia”. E nos dicionários brasileiros se encontra em geral o seguinte significado para “empatia”:

“Empatia (do grego empátheia): tendência para sentir o que sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas por outra pessoa”.

Essa definição de “empatia” nos dicionários de língua portuguesa (brasileira) corresponde ao da palavra “empathy” na língua inglesa contemporânea. Mas, como ressaltamos anteriormente, a palavra “empathy” simplesmente não existia na língua inglesa, na época de Adam Smith.

A palavra “empatia” é bem mais adequada que “simpatia” para expressar o significado da palavra “sympathy” em Adam Smith. Mas ela também não é inteiramente satisfatória. Vejamos o motivo, mais uma vez, nas palavras do próprio Smith:

“Sympathy, portanto, não surge tanto a partir da visão do sentimento, quanto da situação que o provoca. Nós algumas vezes sentimos por outra pessoa, uma ‘passion’ que ele mesmo parece completamente incapaz de sentir; porque, quando nos colocamos em seu lugar, aquela ‘passion’ surge no nosso peito a partir da nossa imaginação, embora não corresponda à realidade. Nós nos sentimos incomodados pela imprudência e grosseria de outra pessoa, embora aquela pessoa não pareça se dar conta da impropriedade do seu próprio comportamento; porque não podemos evitar de sentir que constrangimento tomaria conta de nós, se nós mesmos tivéssemos nos comportado de maneira tão absurda”.4 (Ressalte-se que a palavra “passion”, no sentido aqui utilizado por Smith, e que poderia mais literalmente ser traduzido por “paixão”, também significa “sentimento”, “emoção”. Ele usa “passion”, em lugar de “sense”, ou “sentiment”, com a intenção de distinguir o sentimento da pessoa objeto da “sympathy”, do sentimento do observador imparcial, ou do agente).

Smith usa diferentes exemplos para ilustrar o fato de que, quando exercitamos a “sympathy” com o sentido considerado por ele, o que sentimos pode ser muito diferente do que a pessoa objeto da nossa “sympathy”, ela mesma, sente. Por exemplo, o que sente uma mãe quando exercita a “sympathy” por um filho pequeno que está passando mal, sem poder expressar o que sente; ou até mesmo, num exemplo mais radical também fornecido por ele, o que sentimos quando exercitamos a “sympathy” por uma pessoa querida que morreu.

Enfim, “sympathy”, para Smith, significa experimentar, por meio das relações humanas e da imaginação, não necessariamente o mesmo sentimento, mas sim, a mesma situação, que outra pessoa está experimentando. E quando nos colocamos no lugar do outro, é como se fôssemos dois: 1. Nós mesmos; 2. Um “impartial spectator” (observador imparcial), que é quem sente algo provocado pela situação do outro e a partir desse sentimento nutre e nos indica aprovação ou repúdio pela situação que experimentou ao se colocar no lugar do outro.

Tendo em conta essas qualificações, e por falta de uma melhor opção, traduziremos nesse Blog a palavra “empathy” usada por Smith no livro A Teoria dos Sentimentos Morais, por empatia.

Propriety

Os significados mais usuais da palavra “propriety” na língua inglesa são “adequação”, “justeza”, “decoro”, “correção” ou “decência”. O seu significado mais preciso no livro A Teoria dos Sentimentos Morais, deve ser buscado na Sétima Parte da 6ª edição, onde Smith examina os principais sistemas de filosofia moral do passado e da sua época (não incluindo o de Immanuel Kant); e na Primeira Parte, onde o autor discorre sobre as suas próprias concepções acerca da natureza das virtudes.

Na Sétima Parte, Smith enquadra em três grandes categorias as diferentes concepções das principais escolas de pensamento filosófico sobre a natureza da “virtude”.

Na primeira categoria se encontram aqueles (filósofos) para os quais:

“… um temperamento virtuoso não consiste em nenhuma das espécies de propensões, mas sim no comando e direção mais apropriada (“proper”) de todas as nossas propensões, sejam elas virtuosas ou viciosas, de acordo com os objetos que perseguem, e o grau de veemência com o qual as perseguem. De acordo com esses autores, portanto, virtude consiste em ‘propriety’”.5

Na segunda categoria estão os autores para quem virtude consiste “na busca judiciosa dos nossos próprios interesses privados e felicidade, ou no comando apropriado (‘proper’) daqueles sentimentos egoístas que objetivam somente esse fim”. Esses autores chamam essa virtude de “prudence”.6

Na terceira categoria, finalmente, se encontram os autores para quem virtude consiste naqueles sentimentos que visam exclusivamente “a felicidade dos outros. Para esses autores, portanto, benevolência desinteressada é o único motivo que pode assegurar em qualquer ação o caráter da virtude”.7

Para Adam Smith, portanto, tendo em conta todos esses sistemas de filosofia moral, se a virtude não consiste em “propriety”, ela deve consistir em prudência ou em benevolência.

Segundo Smith, dentre os sistemas de filosofia moral que se enquadram na primeira categoria – ou seja, para quem virtude consiste em “propriety” – estão os de Platão, Aristóteles e Zeno (no caso de Zeno, o Estoicismo). Mas uma das maiores influências sobre a obra ética de Adam Smith veio dos estoicos, e é às visões dos estoicos sobre as virtudes em geral, e “propriety” em particular, que Smith dedica a maior parte da sua avaliação sobre os diferentes sistemas de filosofia moral.

Então, o que significava, mais precisamente, “propriety”, para os estoicos? A seguir reproduziremos algumas observações do próprio Smith úteis para responder a essa pergunta. Selecionaremos apenas algumas das mais importantes:

“Ao escolher ou rejeitar, com esse discernimento justo e preciso, concedendo a cada objeto o grau exato de atenção que merecia, de acordo com o lugar que mantinha nesta escala natural das coisas, manteríamos, segundo os estoicos, aquela perfeita retidão de conduta que constituía a essência da virtude”.8

“Entre os objetos primários que a natureza havia recomendado para nós, como elegíveis, estava a prosperidade de nossa família, de nossas relações, de nossos amigos, do nosso país, da humanidade e do universo em geral. A natureza, também, nos ensinou que, como a prosperidade de dois era preferível à de um, a de muitos, ou de todos, deve ser infinitamente mais preferível ainda. Que nós mesmos somos apenas um, e que, consequentemente, onde quer que nossa prosperidade seja inconsistente com isso, seja do todo, ou de qualquer parte considerável do todo, deveríamos, mesmo em nossa própria escolha, ceder ao que era tão amplamente preferível. Como todos os eventos neste mundo são conduzidos pela providência de um Deus sábio, poderoso e bom, podemos ter certeza de que o que acontecia tendia à prosperidade e perfeição do todo”.9  “Em que sentido, diz Epictetus, algumas coisas são ditas de acordo com nossa natureza, e outras contrárias a ela? É nesse sentido que nos consideramos separados de todas as outras coisas. O que você é? Um homem. Se você se considera algo separado e desapegado, é agradável para sua natureza viver até a velhice, ser rico, estar em saúde. Mas se você se considera um homem, e como parte de um todo, vai acontecer com você às vezes estar na doença, às vezes ser exposto à inconveniência de uma viagem marítima, às vezes estar em falta; e, finalmente, talvez, morrer antes do seu tempo”.10

Nesses comentários há que se identificar pelo menos dois aspectos importantes. Primeiro, que existiria um providencialismo divino; segundo, que esse providencialismo se destinaria a todo o cosmos, incluindo a humanidade, mas não exclusivamente – ou mesmo preferencialmente – à humanidade. A prosperidade do todo é sempre preferível à de todas as partes, incluindo a humanidade. Não é possível tentar se separar com o objetivo de obter exclusividade para qualquer benefício oriundo desse providencialismo.

 “Um sábio nunca reclama do destino da Providência, nem pensa que é o universo que está em confusão quando é ele mesmo quem está fora de ordem. Ele não se vê como um todo, separado e desvinculado de todas as outras partes da natureza, para ser cuidado por si mesmo e para si mesmo. Ele se considera na luz em que imagina que o grande gênio da natureza humana, e do mundo, o considera. Ele entra, se me permite dizer, nos sentimentos desse Ser (“Being”, “Ser”, aqui escrito com letra maiúscula) divino, e se considera um átomo, uma partícula, de um sistema imenso e infinito, que precisa e deve estar de acordo com a conveniência do todo”.11 “Sua felicidade consistia completamente, em primeiro lugar, na contemplação da felicidade e perfeição do grande sistema do universo…; e, em segundo lugar, em desempenhar seu dever, em agir adequadamente nos assuntos desta grande república em qualquer pequena parte que a sabedoria lhe tinha atribuído. A propriedade ou impropriedade de seus esforços pode ser de grandes consequências para ele. Já o seu sucesso ou decepção, de nenhuma consequência”.12

Ou seja, somente a intenção e atitude, próprias ou impróprias, virtuosas ou viciadas, como o homem conduz a sua vida, depende dele próprio, e tem consequências para a sua paz interior e felicidade.

Os resultados poderão ou não satisfazer aos seus desejos, mas não deveriam afetar a sua felicidade (observe-se que isso é uma rejeição ao consequencialismo, que é parte do Utilitarismo de Jeremy Bentham, o qual viria também a ser rejeitado por Adam Smith, conforme veremos mais adiante).

Todos os comentários sobre aspectos do pensamento estoico que transcrevemos acima (em tradução livre) foram feitos por Adam Smith. E como sempre que ele discorda de algum ponto de vista estoico, ele expressa isso de maneira clara. Portanto, parece razoável supor que Smith concordava com todos esses. Mais que isso, essas e outras visões dos estoicos parecem ter exercido relevante influência sobre a sua obra filosófica e econômica.

Por exemplo, ele afirma que todos os sistemas de filosofia moral devem ter como fundamento uma compreensão acerca da natureza:

Como… foram fundados em princípios naturais, eles estão todos, em alguma medida, corretos. Mas como muitos deles são derivados de uma visão da natureza parcial e imperfeita, há muitos deles também que estão errados em alguns aspectos.13

Ou seja, para ele, todos os sistemas de Filosofia Moral necessariamente devem ter como ponto de partida “uma visão da natureza”, do universo, do qual o homem é parte inseparável. E, segundo ele, haveria muitos desses sistemas que erram em alguns aspectos também por se basearem numa “visão da natureza parcial e imperfeita”. Parece-nos provável que ele esteja se referindo aqui especialmente aos sistemas de Hobbes e Mandeville, que ele chamou de “licenciosos”.

Quanto ao entendimento do estoicismo acerca de “propriety”, Smith faz as seguintes ressalvas:

“Os Estoicos em geral parecem ter admitido que pudesse haver um grau de proficiência entre aqueles que não tinham atingido a perfeita virtude e felicidade. Eles distribuíam essas proficiências em diferentes classes, de acordo com o grau do seu desenvolvimento; e eles chamavam as virtudes imperfeitas que supunham que alguns podiam exercer, não retidões, mas “proprieties”, ações adequadas, decentes e convenientes, para as quais uma razão provável ou possível poderia ser atribuída, o que Cícero designa pela palavra latina “officia” e Sêneca, eu penso mais exatamente, pela palavra “convenientia”. A doutrina acerca dessas virtudes imperfeitas, mas alcançáveis, parece ter constituído o que podemos chamar de moralidade prática dos Estoicos. Ela foi objeto do livro “De Officiis”, de Cícero, e se diz que foi também de outro livro escrito por Marcus Brutus, mas que agora está perdido”.14

E ainda:

“Não existe qualquer virtude sem “propriety”, e onde quer que haja “propriety” algum grau de aprovação é devido. Mas… embora “propriety” seja um ingrediente essencial em toda ação virtuosa, não é o único ingrediente. Ações beneficentes têm outra qualidade pela qual parecem merecer não somente aprovação, mas também recompensa”.15

Ou seja, na verdade, para os estoicos toda ação virtuosa deve ser necessariamente “proper”, no sentido de apropriada, adequada ou conveniente. Mas Smith observa que “propriety” (adequação, conveniência) não tem necessariamente mérito, e, portanto, isoladamente, não pode ser considerada virtude – ou, pelo menos, virtude superior.

Na Parte I do seu livro são expressas as concepções do próprio Adam Smith acerca do caráter das virtudes. E sobre o significado de “propriety”, ali ele volta a expressar com mais clareza ainda a ressalva acerca da o entendimento dos estoicos:

“Virtude é excelência, algo extraordinariamente grande e bonito, que sobe muito acima do que é vulgar e comum”.16 Há, a este respeito, uma diferença considerável entre virtude e mera “propriety”; entre essas qualidades e ações que merecem ser admiradas e celebradas, e aquelas que simplesmente merecem ser aprovadas. Em muitas ocasiões, agir com a mais perfeita “propriety”, não requer mais do que esse grau comum de sensibilidade ou auto-comando que os mais inúteis da humanidade são possuidores, e às vezes até mesmo esse grau não é necessário. Assim, para dar um exemplo muito simplificado, comer quando estamos com fome, é certamente, em ocasiões ordinárias, perfeitamente correto e adequado, e não pode deixar de ser aprovado como tal, por todos. Nada, no entanto, poderia ser mais absurdo do que dizer que é virtuoso”.17

Em resumo, para Adam Smith, isoladamente “propriety” não é, necessariamente, uma virtude, pois pode ser perfeitamente “proper” (adequada, apropriada), mas não ter nenhum mérito. Por outro lado, as virtudes, como Prudência e Benevolência, na prática exigem “propriety”. E a percepção dessa “propriety” é sempre “obtida” dos sentimentos do “impartial sepectator”.

Feitas as qualificações acima, neste Blog traduziremos a palavra “propriety” por adequação.

Diferenças Entre “Self Love”, “Self Interest” e “Selfishness” na Obra de Adam Smith

É comum a afirmação de que o amor é a energia mais poderosa do universo. Difícil não reconhecer a beleza e poder do amor. Mas somente do amor ao próximo?! Em que sentido o amor por si mesmo seria diferente ou até mesmo condenável?

Na língua inglesa, “self love” é usualmente traduzido como “amor-próprio”, ou “amor por si mesmo”; e “self-interest”, por “auto-interesse”, ou “interesse pessoal”. E podem ser considerados sinônimos, sem maior inconveniência. O próprio Adam Smith algumas vezes utiliza a expressão “self-love” para indicar “interesse pessoal”. Já o significado da palavra “selfishness” é “egoísmo”. Curiosamente, Smith não usa a palavra “selfishness” em nenhum dos livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Não obstante, a leitura dos livros não deixa dúvidas de que ele distingue claramente self-interest de selfishness. Condena o egoísmo predatório (selfishness) e aprova o interesse próprio moderado (self-love e self-interest).

Entendimentos de Outras Fontes de Sabedoria

A seguir vamos nos limitar a descrever o entendimento de outros filósofos e tradições de sabedoria acerca das diferenças relevantes entre “self-love” (ou “self-interest”) e “selfishness”.

Aristóteles

“Selfishness” significa, nas palavras do próprio Aristóteles, um “self-interest” ou “self-love” em excesso, que se desvia para a disposição de agredir os legítimos interesses de outrem. “… já, seguramente, o amor ao ‘self’ (self-love) é um sentimento implantado pela natureza e não foi dado em vão. O egoísmo que deve ser censurado não é o legítimo amor ao self, mas o amor ao self em excesso, como a miséria do amor (excessivo) ao dinheiro. Pois todos, os homens amam o dinheiro e outros objetos semelhantes, em certa medida”.18

Tomás de Aquino

“… um homem, fora da caridade, deve amar a si mesmo mais do que a qualquer outra pessoa, mais do que a seu vizinho”.19

Em outras palavras, para Tomás de Aquino o primeiro dever do homem é trabalhar sobre a sua própria salvação – a salvação de si mesmo.

Budismo

“Selfishness (mamatam, possessividade, macheram, mau comportamento, lei dos tubarões), é um mal moral, portanto a domesticação do self exige uma disciplina moral. Mas “selfishness” é suportado por “Self-isness” (asmi-mana, anattaniattãditthi), e meros mandamentos dificilmente serão suficientes até que a visão errônea de que’este sou eu’ tenha sido quebrada. Pois o self é sempre auto assertivo, e é somente quando a verdadeira natureza do inconstante self for compreendida que um homem estará em condições de superar o seu pior inimigo e torná-lo um servo e aliado”.20

No livro A Teoria dos Sentimentos Morais fica claro que, para Adam Smith, o amor a si mesmo, é um instinto básico de sobrevivência colocado em todos os seres humanos pela natureza. E amar a si mesmo é também uma condição para ser feliz. Ocorre que, para ele, o ser humano só consegue amar a si mesmo se receber o amor (merecido) das pessoas com quem se relaciona. E receber esse amor só pode resultar da benevolência desinteressada. Ou seja, amar a si mesmo e amar a outrem são coisas inseparáveis. Já o egoísmo não contribui para a felicidade de quem o pratica, e costuma causar danos a terceiros. 

Natureza Humana e Benevolência, para Adam Smith

Vimos na postagem anterior que pensadores como Hobbes e Mandeville simplesmente afirmam que a natureza humana é incompatível com a benevolência. Já outros como Shaftesbury, Hutcheson e Adam Smith, defendem a tese de que a benevolência desinteressada é uma possibilidade para todos os seres humanos. Mas a concretização dessa possibilidade isso exige alcançar um “estado cultivado de consciência”. Que, por sua vez, tem sua semente em princípios que fazem parte da própria natureza humana.   

Note-se que para Adam Smith, todos os seres humanos têm em sua natureza a capacidade de experimentar a benevolência (ou seja, tornar a felicidade dos outros necessária para si mesmo, e de forma desinteressada). Ele não somente tinha essa crença, mas se propôs a aprofundar em muito no seu livro A Teoria dos Sentimentos Morais o empenho que Hutcheson já havia realizado na tentativa de demonstrá-la.

Portanto, essa tese de Smith sobre a natureza humana se contrapõe às de pensadores como Hobbes e Mandeville (não quanto ao estado de consciência em que a maioria de nós se encontra, neste mundo. Mas sim quanto às nossas possibilidades). Por outro lado, Adam Smith apresenta em seu livro enfáticos e impressionantes libelos contra os males decorrentes do egoísmo (selfishness) predatório.

Respeito de Adam Smith pela Filosofia Antiga e Desapontamento com Alguns Sistemas da sua Época

A observação a seguir reflete o respeito de Adam Smith por sistemas filosóficos da antiguidade que têm uma visão positiva sobre as possibilidades de florescimento e evolução da consciência humana, ao mesmo tempo em que manifesta o seu desapontamento com alguns da sua época (século XVIII):

“Os poucos fragmentos que chegaram a nós daquilo que os antigos filósofos tinham escrito sobre esses assuntos, formam, talvez, uma das mais instrutivas, como também das mais interessantes, relíquias da antiguidade. O espírito e virilidade das suas doutrinas formam um maravilhoso contraste com o deprimente, melancólico e lamuriento espírito de alguns sistemas modernos”.21

Os sistemas filosóficos da sua época, sobre os quais ele revela uma avaliação fortemente negativa no que concerne ao entendimento sobre a natureza humana, certamente incluíam os de Hobbes e Mandeville, aos quais ele chamou de “Sistemas Licenciosos”. Surpreendentemente, até hoje, o argumento de Mandeville sobre uma natureza humana essencialmente viciada e sempre egoísta não raramente é atribuída, de forma inteiramente infundada, a Adam Smith. Na verdade, a concepção ética do “homo economicus”, que viria a ser incorporada mais tarde (pelo menos como uma hipótese simplificadora, conveniente para a elaboração de modelos matemáticos. Voltaremos a esse assunto), à moderna teoria econômica sobre a natureza humana, está tão próxima da visão de Mandeville quanto distante da de Smith.

Comentário Final

Embora, como vimos, Adam Smith não utilize em nenhum dos livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações, a palavra “selfishness”, no primeiro desses livros ele escreve verdadeiros brados contrários ao egoísmo predatório (selfishness”).  Será possível, como consideraram parte dos intérpretes da sua obra, que no livro A Riqueza das Nações, escrito 17 anos depois, ele tenha se tornado favorável a essa forma de egoísmo?! Isso é o que veremos na próxima postagem.

REFERÊNCIAS

1. Livro “A Teoria dos Sentimentos Morais”, Glasgow Edition, I.i.5.5;
2. Ibid, I.i.i.5;
3. Ibid, Nota de Rodapé nas páginas 10 e 11;
4. Ibid, I.i.i.10, pg. 12;
5. Ibid, VII.ii.1 – Introdução, pg. 265;
6. Ibid, VII.ii.2.2;
7. Ibid, VII.ii.2.3;
8. Ibid, VII.ii.1.16.;
9. Ibid, VII.ii.1.18.;
10. Ibid, VII.ii.1.19.;
11. Ibid, VII.ii.1.20;
12. Ibid, VII.ii.1.21;
13. Ibid, VII.i.1. pg. 265;
14. Ibid, VII.ii.1.42., pgs 291-2;
15. Ibid, VII.ii.1.50;
16. Ibid, I.i.5.6;
17. Ibid, I.i.5.7;
18. Aristóteles, Politics, Livro II, Parte V;
19. Suma Teológica, II-ii, 26.4;
20. Coomaraswamy, Ananda K. , “The Living Thoughts of Gotama the Budha”, Pgs. 17-18;
21. Livro “A Teoria dos Sentimentos Morais”, Glasgow Edition, VII.II.1.29.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor: 

Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

COMUNICADO:

O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.

O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.

O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.

Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.

Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.

Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.

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