Não é de surpreender que uma dor de cabeça torne a pessoa infeliz e que o segundo melhor protagonizador dos sentimentos de um dia seja se uma pessoa teve ou não contatos com amigos ou parentes. É apenas um leve exagero dizer que a felicidade é a experiência de passar o tempo com as pessoas que você ama e que amam você.1 Durante os últimos dez anos, descobrimos muitos fatos sobre a felicidade. Mas descobrimos também que a palavra felicidade não possui um significado simples e não deve ser usada como se possuísse. Às vezes o progresso científico nos deixa mais confusos do que estávamos antes.2 — Daniel Kahneman
Na terceira postagem que fizemos neste Blog, em 17 de junho de 2025, escrevemos que “Dugald Stewart foi um matemático e filósofo escocês considerado um dos personagens mais importantes da última fase do Iluminismo no seu país. Foi Professor de Filosofia Moral na Universidade de Edimburgo de 1785 até 1810 e um dos fundadores da Real Sociedade de Edimburgo”.
Stewart fazia parte do mesmo círculo de relacionamentos de Adam Smith e era seu profundo admirador. Em 1793, três anos depois da morte de Smith, ele apresentou o precioso “Relato sobre a Vida e Escritos de Adam Smith”, na Royal Society of Edinburgh, onde consta a seguinte observação:
“Dr. Maclaine de Hague, que foi um estudante colega de Mr. Smith em Glasgow, disse-me alguns anos atrás que as suas matérias de estudo favoritas na universidade foram matemáticas e filosofia natural. Essas, contudo, certamente não foram as ciências nas quais ele foi formado para se destacar; nem o desviaram por muito tempo de atividades mais agradáveis à sua mente… O estudo da natureza humana em todos os seus ramos, mais particularmente da história política da humanidade, abriu um campo ilimitado para sua curiosidade e ambição. Mas a sua paixão dominante era contribuir para a felicidade e a melhoria da sociedade”.3
Naquela mesma postagem escrevemos também que “o projeto inacabado da obra de Adam Smith – incluindo a parte que hoje se encontra disponível depois da publicação da Glasgow Edition – se refere aos aspectos fundamentais envolvidos num processo civilizador”, que se destina a tentar conciliar a liberdade e felicidade de cada indivíduo com as dos demais membros da sociedade.
O que tem a ver o livro “A Riqueza das Nações” com essa motivação fundamental de Adam Smith – a felicidade possível nessa vida, para todas as pessoas? E de que maneira essa motivação é também uma forma de conexão desse livro com todo o restante da sua obra filosófica?
Uma Breve Menção à História da Felicidade – Tão Misteriosa e Incompreendida, Quanto Enganosamente Almejada
O tema da felicidade já era de interesse destacado da humanidade desde os seus primórdios. Mas até o presente não existe uma definição consensualmente aceita para ela. Na verdade, parece-me que até o presente nem a ciência nem a filosofia sabem precisamente o que ela é. Por isso pensamos que se justificam aqui algumas brevíssimas referências à história da felicidade, desde os grandes filósofos gregos que viveram séculos antes de Cristo.
Sócrates, Platão, Aristóteles e o estoico Zeno de Citium, foram todos adeptos da chamada “ética das virtudes”, intimamente associada ao conceito expresso pela palavra “Eudaimonia”. Segundo Aristóteles, muitas das coisas que fazemos não são feitas por si mesmas, sendo apenas meios para conseguirmos outras coisas. Por exemplo, não ganhamos dinheiro como um fim em si mesmo, mas como um meio para a aquisição de bens e serviços.
Frequentemente, nossos desejos são uma sequência: queremos A para podermos ter B; queremos B para termos C; queremos C para podermos ter D… Mas, segundo Aristóteles, tudo tem um propósito final (em grego, um Telos, um fim, palavra da qual se origina o termo “teleologia”). E esse propósito final para todos os seres humanos é a “Eudaimonia”. Assim, Aristóteles conclui que a Eudaimonia é o bem supremo, porque seria a única coisa que queremos por si mesma, e não apenas como um meio.
Mas atenção! O fato de Eudaimonia ser um exemplo de telos, de um propósito final, não significa necessariamente que a sua conquista, quando acontece, é sempre final, definitiva. Para Aristóteles, a felicidade é uma maneira de ser, “uma atividade da alma em sintonia com a virtude”; é uma forma de vida que precisa continuar sendo cultivada e preservada, a cada instante, até a morte.
Posteriormente, a palavra Eudaimonia passou a ser considerada um sinônimo para “felicidade”, ou “florescimento”. Mas frequentemente a palavra “felicidade” tem sido usada nos tempos modernos com sentidos que pouco têm a ver com Eudaimonia.
Podemos realizar um esforço adicional para compreender o que era, mais precisamente, Eudaimonia, para Aristóteles e os grandes filósofos gregos. Mas prevenindo, desde já, que cada um desses filósofos tinha uma concepção, algo diferenciada acerca desse significado.
Eudaimonia e Riqueza Material
Sócrates e Platão
Quase tudo o que se soube sobre o pensamento de Sócrates foi por intermédio de Platão. Usualmente se entende que ambos consideravam a riqueza material irrelevante para a Eudaimonia, enquanto Aristóteles e os estoicos tiveram uma opinião diferente. Esse entendimento é belamente ilustrado pelo famoso afresco do artista renascentista Rafael Sanzio, pintado entre 1509 e 1511 no Vaticano, no qual Platão aparece apontando para cima (a metafísica, a espiritualidade) e Aristóteles apontando para baixo (as coisas práticas, a vida mundana).
Esse entendimento envolve nuances que merecem qualificações.
Platão também demonstrou grande interesse no tema da política e do “processo civilizador”. Mas ele dá ênfase ao entendimento de que esse processo e a Eudaimonia dizem respeito, antes de tudo, a uma forma de vida virtuosa, ética, dos indivíduos – que é naturalmente transposto para a polis. Para ele, indivíduos imorais e injustos jamais poderão formar uma polis justa. E a formação de cidadãos justos é muito mais um resgate interior de faculdades da alma do que um aprendizado que demanda uma dependência de fatores externos ao indivíduo.
Daí a palavra “florescimento” ter passado a ser usada como sinônimo de Eudaimonia. O que “floresce” é apenas resgatado do interior do indivíduo. Como uma flor que emana do seu casulo, mas para isso precisa receber o orvalho. O processo civilizador é tornado possível, antes de tudo, pelo florescimento das virtudes nos indivíduos. Ao mesmo tempo, esse processo civilizador é o orvalho que favorece e fortalece o florescimento.
É nesse sentido que a origem da Eudaimonia quase nada tem a ver com a conquista da riqueza material. Mas isso não significa que a superação da miséria e da pobreza não tenham importância para o processo civilizador.
Aristóteles
Aristóteles enfatiza mais que Platão o fato inegável de que o homem feliz necessitará também de bens exteriores, pois precisa que seu corpo esteja em boa saúde, que tenha acesso a alimentação e atendimento às demais necessidades básicas. Mas também considera que não precisará de coisas numerosas e caras para ser feliz, pois a Eudaimonia só demanda os meios de sobrevivência digna e os necessários para a ação virtuosa.
Estoicos
Uma ideia concernente ao pensamento dos estoicos sobre a Eudaimonia é fornecida numa citação do próprio Adam Smith:
“A sua felicidade (dos Estoicos) consistia inteiramente, primeiro, na contemplação da felicidade e perfeição do grande sistema do universo, do bom governo da grande república de deuses e homens, de todos os seres racionais e sensíveis; e, em segundo lugar, no cumprimento dos seus deveres, no agir apropriadamente nos negócios dessa grande república seja qual for a pequena parte que a sabedoria lhes tenha atribuído… Todas as suas motivações estavam absorvidas e assimiladas em duas grandes motivações: o cumprimento dos seus próprios deveres, e a maior felicidade possível de todos os seres racionais e sensíveis”.4
Mas, também de acordo com o próprio Adam Smith, os estoicos reconheciam o papel da superação da miséria e pobreza material para a conquista da Eudaimonia:
“Assim, saúde, força, agilidade e alívio do corpo, como também conveniências externas que pudessem promovê-las; riqueza, poder, honra, o respeito e estima daqueles com quem se vive; todas essas coisas eram naturalmente indicadas como elegíveis, e para as quais a posse era preferível ao desejo. Do outro lado, doença, enfermidade, imobilidade, sofrimento do corpo, como também as inconveniências externas que tendam a ocasionar ou levar a qualquer uma delas; pobreza, o desejo de autoridade, o desprezo ou rancor daqueles com quem vivemos; eram, da mesma forma, indicados a nós como coisas a serem evitadas”.5
De um modo geral, fazia parte dos grandes filósofos gregos adeptos da chamada “ética das virtudes” e da Eudaimonia o entendimento de que era dever fundamental dos governantes promover a prática das virtudes perante todos os habitantes da pólis. Mas Aristóteles acreditava que se encontra ao alcance das pessoas uma sabedoria prática (phronesis), que é também uma virtude moral, fundamentada na razão, com implicações políticas; que os indivíduos com sabedoria prática são capazes de desenvolver uma ética autônoma, que lhes capacite a deliberar corretamente sobre o que é bom – não apenas para si mesmos, mas também para seus concidadãos. Os próprios agentes devem avaliar qual a ação apropriada em cada situação. Não existiria Eudaimonia sem virtude, nem virtude sem phronesis.
A Perda de Prestígio da Felicidade Nesta Vida, Durante a Idade Média
Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, o cristianismo católico, e mais tarde, reformista, passou a se sobrepor à filosofia, particularmente no ensino das escolas e universidades. Uma das consequências foi uma ênfase muito maior colocada sobre a salvação da alma e a conquista do paraíso numa outra vida do que sobre a felicidade nesta vida.
Felicidade e Riqueza Material na Obra de Adam Smith
Suponhamos que alguém que nada sabe sobre Adam Smith e sua obra fosse informado que ele gastou 10 anos da sua vida recolhido em sua cidade natal, afastado de todos os demais compromissos de trabalho; dedicado quase exclusivamente a escrever um livro com volume aproximado de 1.000 páginas dedicado a demonstrar de que forma as nações podem superar as barreiras à conquista da riqueza; e que a essa pessoa se perguntasse: qual você acha que deveria ser a opinião desse Adam Smith sobre a importância da riqueza para a felicidade?
Que tipo de resposta se poderia esperar? Não lhes parece que algo como: “esse Smith deveria achar que a riqueza é a coisa mais importante para a felicidade. Deveria ser fascinado pela riqueza”?
Nas próximas postagens retomaremos esse tema da relação entre riqueza material, processo civilizador e felicidade para Adam Smith, tal como ele o considerou, não somente no livro “A Riqueza das Nações”, mas em toda a sua obra filosófica. Em seguida veremos como esse tema tem sido tratado no mundo moderno.
COMUNICADO:
O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.
O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.
O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.
Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.
Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.
Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.
Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.
Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor:
Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com
REFERÊNCIAS
1. Kahneman, Daniel, “Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar”, Editora Objetiva Ltda, 2011, pg. 494;
2. Ibid, pg. 509;
3. Esse testemunho de Dugald Stewart foi republicado em formato impresso, pelo Liberty Fund, no volume da Glasgow Edition intitulado “Ensaios sobre Temas Filosóficos”, em 1980;
4. Smith, Adam, “A Teoria dos Sentimentos Morais”, VII.ii.1.21, pg. 277 – Glasgow Edition;
5. Smith, Adam, “A Teoria dos Sentimentos Morais”, VII.ii.1.16, pg. 272 – Glasgow Edition.



