Anunciamos anteriormente que ao invés de fazermos apenas mais uma análise separada do livro A Riqueza das Nações nossa abordagem daria ênfase à conexão desse livro com as demais partes do projeto de oeuvre que foi concebido por Adam Smith. Mas para isso precisaríamos ter uma ideia do que teria sido esse projeto. Na postagem anterior fizemos referências aos materiais que foram destruídos por ordem de Smith pouco antes da sua morte. Na presente postagem abordaremos os textos que foram preservados e publicados postumamente (mencionando também os dois livros publicados em vida).
Materiais Publicados Postumamente
- Essays on Philosophical Subjects (Ensaios sobre Temas Filosóficos).
Nos anos que se seguiram à morte de Adam Smith seus amigos Joseph Black e James Hutton se dedicaram a organizar a publicação dos textos não destruídos e não publicados em vida. A publicação viria a tomar forma num volume intitulado “Essays on Philosophical Subjects” (Ensaios sobre Temas Filosóficos), que foi lançado em Londres, em 1795. O volume incluía o interessantíssimo relato sobre a vida e escritos de Smith feito por Dugald Stewart, à qual já fizemos referências em postagens anteriores. Tanto os “Ensaios” quanto o relato de Stewart compuseram um dos volumes que viriam a ser publicados, muito mais tarde, pela excelente “Glasgow Edition dos Trabalhos e Correspondência de Adam Smith”.
Do conjunto de trabalhos inéditos contidos nesses ensaios destacam-se três, em conjunto denominados “Os Princípios que Orientam e Dirigem as Investigações Filosóficas”: uma História da Astronomia, uma História da Física Antiga e uma História da Lógica e Metafísica Antiga (ressalte-se que, como bem sugere o título geral, o interesse predominante aqui nessa abordagem sobre astronomia e física antigas é de natureza histórica, metodológica e filosófica).
Além desses, o volume incluía os seguintes ensaios: “Of the Affinity Between Certain English and Italian Verses” (Da Afinidade entre Certos Versos Ingleses e Italianos); “Of the External Senses” (Sobre os Sentidos Externos); “Of the Nature of that Imitation which Takes Place in What Are Called the Imitative Arts” (Da Natureza Daquela Imitação que Acontece no que São Chamadas Artes Imitativas); e “Of the Affinity Between Music, Dancing and Poetry” (Da Afinidade entre Música, Dança e Poesia”).
Considera-se que esses ensaios foram escritos no período da juventude de Adam Smith, entre 1748 e 1751, durante o qual ele proferiu palestras públicas sobre retórica e história da filosofia e do direito em Edimburgo.1
Embora tenham sido muito menos celebrados que os dois livros publicados em vida por Smith, esses ensaios foram objeto de pelo menos oito edições nos primeiros cem anos desde o seu aparecimento. Mas no século XX adquiriu um interesse renovado – especialmente os três primeiros ensaios sobre “Os Princípios que Orientam e Dirigem as Investigações Filosóficas” (ilustrados pela História da Astronomia, da Antiga Física e da Antiga Lógica e Metafísica).
REFERÊNCIAS ANTECIPADAS À TESE DOS CHAMADOS FILÓSOFOS SENTIMENTALISTAS, SEGUNDO A QUAL O PRINCÍPIO DE APROVAÇÃO DOS VALORES MORAIS SÃO “SENTIMENTOS”.
“(Nesse ensaio sobre astronomia)… Smith estava amplamente preocupado com um aspecto muito específico do problema do ‘conhecimento’, a saber, o estímulo dado à compreensão (à busca do conhecimento) por ‘sentimentos’ como surpresa, assombro, ou admiração diante do desconhecido”. “É o projeto deste ensaio considerar particularmente a natureza e as causas de cada um desses sentimentos, cuja influência é de extensão muito mais ampla do que deveríamos estar aptos a imaginar sob uma visão descuidada”.2
Ou seja, Adam Smith declara nesse ensaio sobre astronomia que a motivação primária para a busca do conhecimento, para o exercício da filosofia, da ciência, são “sentimentos” diante dos fenômenos incompreendidos. Admiração, surpresa, deslumbramento, que criam a motivação primária para buscar compreendê-los, visando aquietar, assim, o desconforto frente ao desconhecido. De acordo com esse entendimento, somente nos estágios seguintes da investigação, e especialmente no trabalho de descrição do conhecimento adquirido, é que a razão e a experiência assumem uma função mais crucial.
Como veremos mais adiante, a essência desse entendimento acerca da função de “sentimentos” Adam Smith já conhecera por meio dos chamados “filósofos sentimentalistas” que o antecederam, ou contemporâneos a ele, especialmente do seu professor Francis Hutcheson. Essa deve ter sido a própria razão da escolha do título do primeiro livro que ele viria a publicar anos depois, em 1759: A Teoria dos Sentimentos Morais. E nesse livro ele assumiria também a tese de que a motivação primária dos valores morais não se origina da razão, mas sim de sentimentos oriundos de um “espectador imparcial”.
- Lectures on Jurisprudence (Aulas sobre Jurisprudência)
Em 1895 Edwin Cannan (1861-1935), economista e historiador britânico, que foi professor da London School of Economics de 1895 a 1926, descobriu manuscritos de propriedade de um advogado de Edimburgo, na Escócia, intitulados “Jurisprudence – or Notes from the Lectures on Justice, Police, Revenue, and Arms Delivered in the University of Glasgow by Adam Smith, Professor of Moral Philosophy” (Jurisprudência – ou Notas de Aulas sobre Justiça, “Police”, Receita Pública e Armas Proferidas na Universidade de Glasgow por Adam Smith, Professor de Filosofia Moral).
Confirmada a autenticidade das notas de aulas, no ano seguinte Cannan as publicou com o título: “Lectures on Justice, Police, Revenue and Arms Delivered in the University of Glasgow by Adam Smith” – Oxford, 1896 (Aulas sobre Justiça, “Police”, Receita Pública e Armas Proferidas na Universidade de Glasgow por Adam Smith). A edição incluía dois conjuntos, sendo o primeiro relativo às aulas proferidas em 1762 e 1763, e o segundo em 1763 e início de 1764. Convencionou-se chamar o primeiro “Lectures on Jurisprudence” de LJ (A) e o segundo de LJ (B). Considera-se hoje em dia que o LJ (B) já continha as ideias fundamentais de Adam Smith sobre a matéria à qual ele viria a dedicar o livro A Riqueza das Nações, aproximadamente quinze anos depois.
Naquela época, nas universidades da Escócia, o curso de Filosofia Moral abrangia Religião Natural, Ética e Jurisprudência. Essa última abrangia Teoria da Justiça e Economia Política (“Police”, Receitas e Armas). “Police” era a palavra que denotava Economia Política e Governança. Receita tratava do tema da tributação. E Armas se referia à segurança doméstica e àproteção do estado contra ameaças externas.
- Lectures on Rhethoric and Belles Lettres (Aulas sobre Retórica e Belas Letras).
Como já relatamos anteriormente, Adam Smith deixou a Universidade de Oxford, na Inglaterra, em 1746 e foi para Kirkcaldy, sua cidade natal, onde permaneceu até 1748. Naquele mesmo ano começou a dar aulas de Retórica e Belas Letras em Edimburgo, o que fez até 1750. Em 1751 foi contratado como professor de Lógica e Belas Letras pela Universidade de Glasgow. No ano seguinte assumiu a cadeira de Filosofia Moral naquela universidade.
Em 1958, John M. Lothian (1896 – 1970), ex-aluno da Universidade de Glasgow, então membro da Universidade de Aberdeen, na Escócia, descobriu e adquiriu, numa livraria daquela cidade, dois volumes de manuscritos intitulados “Notes of Dr. Smith´s Rhetorick Lectures”. O manuscrito original desse que teria sido o seu primeiro trabalho fora destruído, cumprindo instruções neste sentido que ele havia dado a seus amigos David Joseph Black e James Hutton. Em setembro de 1963 Lothian publicou uma edição dessas notas com o título: “Lectures on Rhetoric and Belles Lettres Delivered in the University of Glasgow by Adam Smith, Reported by a Student in 1762-63” (Aulas sobre Retórica e Belas Letras Proferidas na Universidade de Glasgow por Adam Smith, anotadas por um Estudante em 1762-63). Esse material foi objeto de um dos títulos da Glasgow Edition, tendo sido publicado em 1983.
Estudiosos destacam aspectos importantes da relação entre essa primeira obra de Smith sobre retórica e a sua economia política. Exemplo:
“De acordo com Smith, a essência e o fundamento da troca e do comércio estão na linguagem… O discurso retórico remete à luz a dimensão social e humana concernente às relações de troca. A troca de bens requer um acordo obtido por ‘barganha’… A economia é ‘economia política’ no sentido de que, paralelamente às relações dos homens com as coisas, é uma ciência que estuda as relações entre os próprios homens. A oferta e a demanda incorporam os desejos e vontades dos homens. Isso nos leva, portanto, a realizar um estudo detalhado das relações de troca como relações morais e de persuasão, revelando a ‘linguagem da troca’”.3
Para Adam Smith, são quatro os gêneros literários: o histórico, o poético, o científico (ou didático) e o retórico (ou persuasivo). O gênero científico busca a maior aproximação possível da verdade, enquanto o retórico usa quaisquer meios para o objetivo de convencer a audiência.4
- The Early Draft of The Wealth of Nations (O Primeiro Rascunho do Livro “A Riqueza das Nações”).
No seu livro “Adam Smith as Student and Professor” (Adam Smith como Estudante e Professor), de 1937, William Robert Scott publicou a sua própria descoberta do manuscrito que intitulou “Early Draft of Part of The Wealth of Nations” [Esboço Inicial de Parte (do livro) A Riqueza das Nações]. Os editores do volume “Lectures on Jurisprudence” R. L. Meek, D. D. Raphael e P. G. Stein na Glasgow Edition observam que esse texto parece ter sido uma tentativa bastante preliminar de Smith de colocar o material sobre economia política contido nas suas aulas sobre Jurisprudência em forma de livro. Eles consideram provável que ele tenha empreendido essa tentativa pouco tempo antes do mês de abril do ano 1763. Provavelmente ela foi temporariamente interrompida pela sua iniciativa de pedir demissão da Universidade de Glasgow para empreender uma viagem pela Europa como tutor do Duque Buccleuch, em 1764.
Obras Publicadas em Vida
Em 1759 Smith publicou o seu primeiro livro, sobre Ética, intitulado “A Teoria dos Sentimentos Morais”. Da mesma forma em que transformou a parte sobre ética do curso de filosofia moral neste seu primeiro livro publicado, as suas aulas sobre jurisprudência natural relacionadas com “Police, Revenueand Arms” (que ele chamaria de “Economia Política”) formaram matéria prima básica para o que viria a ser o seu segundo livro, intitulado “An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations” (Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações).
Viagem pela França e Contato Pessoal com Fisiocratas
Em 1764 Adam Smith se desligou da Universidade de Glasgow para se tornar tutor do jovem Duque Buccleuch, com quem viajou durante mais de dois anos pela França e Suíça. Essa viagem lhe proporcionou contatos pessoais pelo menos com boa parte dos destacados intelectuais daquela época, como Claude Adrien Helvétius (1715 – 1771), François-Marie Arouet – pseudônimo M. de Voltaire (1694 — 1778), Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778); Victor Riqueti, marquês de Mirabeau (1715 – 1789); Paul-Henri Thiry, barão d’Holbach (1723 – 1789), Robert Jacques Turgot (1727 — 1781), Denis Diderot (1713 – 1784), Jean Le Rond d’Alembert (1717–1783) e François Quesnay (1694 – 1774). Esse último personagem, que era médico e se dedicou intensamente ao estudo de temas econômicos, foi o mais destacado representante da Fisiocracia, que, juntamente com o Mercantilismo na Inglaterra, representavam o pensamento econômico dominante na Europa antes da publicação, por Adam Smith, do livro A Riqueza das Nações.
Depois da publicação desse seu segundo livro, em 1776, Smith prestou consultoria a governos do Reino Unido sobre assuntos de política econômica em áreas como tributação e comércio internacional e em 1778 foi nomeado para um cargo público como “Comissioner for Customs” (Comissário para Direitos Aduaneiros), passando a viver novamente em Edimburgo. Ocupou essa função até pouco antes da sua morte, em 1790.
Adam Smith foi, reconhecidamente, um dos expoentes do chamado “Iluminismo Escocês” e um dos membros fundadores da prestigiada Royal Society of Edinburgh, em 1787. Nunca se casou nem teve filhos. Morreu em 17 de julho de 1790, aos 67 anos.
COMUNICADO:
O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.
O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.
O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.
Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.
Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.
Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.
Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.
Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor:
Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com
REFERÊNCIAS
1. Ross, Ian, “The Life of Adam Smith”, Oxford: Clarendon Press, 1995, pg. 98;2. Ensaios sobre Temas Filosóficos, Glasgow Edition, Introdução Geral, pg. 04;
3. Walraevens, Benoît – “Adam Smith’s Economics and the Lectures on Rhetoric and Belles Lettres. The Language of Commerce” – History of Economic Ideas” – vol. 18, no. 1, 2010 – Published by: Accademia Editoriale;
4. Ver Howell, Wilbur S. Adam Smith’s Lectures on Rhetoric: an Historical Assessment, p. 26-29. Em: Skinner, Andrew; Wilson, Thomas, Essays on Adam Smith Oxford: Clarendon Press, 1975.



