Temos argumentado que não é possível compreender o livro A Riqueza das Nações como uma parte separada do conjunto da obra de Adam Smith. Mas de que conjunto de obra estamos falando? Na verdade, devemos nos referir a um projeto de obra, por duas razões: primeiro, porque Smith não conseguiu concluir parte desse projeto (algo mais comum na vida de autores de grandes obras da humanidade, do que se costuma imaginar); segundo, porque pouco antes de morrer ele deu ordens para destruir uma quantidade considerável de manuscritos que não haviam sido publicados (algo também não muito raro entre escritores?!). Mesmo assim, é muito útil para a melhor compreensão do livro A Riqueza das Nações situá-lo em relação a esse projeto de obra. É o que tentaremos fazer, a seguir.
Projeto de Oeuvre não Concluído
Ordem para Destruir Manuscritos não Publicados.
Antes de procurar reconstituir os diferentes temas do projeto de obra que consideramos ter sido concebido por Adam Smith – e, tão ou mais importante, a conexão de cada uma delas com a unidade desse projeto – faz-se necessário destacar uma decisão tomada por ele antes da sua morte: a destruição de vários manuscritos, dos quais até então nada havia sido publicado. Para maiores informações acerca dessa decisão precisaremos recorrer, mais uma vez, ao depoimento de Dugald Stewart:
“Poucos dias antes de sua morte, vendo seu fim se aproximar rapidamente, ele deu ordens para destruir todos os seus manuscritos, exceto alguns ensaios destacados, que ele confiou aos cuidados de seus executores. Qual era o conteúdo particular desses papéis, não era conhecido nem mesmo por seus amigos mais íntimos; mas não pode haver dúvida de que consistiam, em parte, nas palestras sobre Retórica, que ele leu em Edimburgo no ano de 1748, e nas palestras sobre religião natural e jurisprudência, que faziam parte de seu curso em Glasgow.”2
Quais Teriam Sido os seus Motivos para Ordenar a Destruição Daqueles Manuscritos?
Primeiramente, há que se considerar o lento e sofrido processo de criação, destruição e refazimento que sabidamente envolvia o seu trabalho de escrita, até que considerasse a obra pronta para ser publicada. Smith era um perfeccionista, e aparentemente não tinha o talento nato ou a disposição de tantos escritores de rapidamente dar a forma aos seus escritos, considerando-os prontos para publicação, muitas vezes quase no seu primeiro formato.
Ele teve uma saúde frágil desde a sua infância. Durante os últimos anos da sua vida o seu estado de saúde se agravou, reduzindo em muito mais a sua capacidade de trabalho e possibilidade de colocar parte do seu projeto de oeuvre em condições que ele considerasse satisfatórias para publicação.
Outra razão aparente foi que o período da vida ao longo do qual ele poderia ter completado e publicado o seu projeto inicial de obra, foi bastante longo – aproximadamente, de 1746, quando retornou da Inglaterra para a Escócia, até 1790, ano da sua morte. Ou seja, aproximadamente 44 anos. No entanto, o tempo que ele pôde efetivamente se dedicar a escrever foi muito mais curto.
Entre 1758 e janeiro de 1764 ele acumulou a função de professor com a de Reitor, em Glasgow, e essa última função evidentemente exigia dele uma dedicação relevante também a assuntos administrativos. Em 1764 ele se desligou da Universidade de Glasgow para se tornar tutor do jovem Duque Buccleuch, com quem viajou durante mais de dois anos pela França e Suíça.
Somente quando retornou dessa viagem ele pôde se isolar na sua cidade natal durante quase dez anos, período no qual pôde se dedicar a escrever o livro Riqueza das Nações. Essa dedicação se tornou possível em decorrência de uma pensão vitalícia que recebeu do Duque de Buccleuch, após a conclusão do seu trabalho como tutor, uma vez que até então ele precisava ter uma fonte de renda do trabalho para sustentar a si mesmo e à sua mãe viúva.
Depois da publicação de A Riqueza das Nações, em 1776, prestou consultoria a governos do Reino Unido sobre assuntos de política econômica em áreas como tributação e comércio internacional e em 1778 foi nomeado para um cargo público como “Comissioner for Customs” (Comissário para Direitos Aduaneiros), passando a viver novamente em Edimburgo. Ocupou essa função até pouco antes da sua morte, em 1790.
Há evidências também de que ele tinha muito receio do que poderia resultar de edições e publicações póstumas dos seus manuscritos, que não poderiam contar com as suas próprias supervisão e revisões.
Já em 1773, 17 anos antes da sua morte, quando se dedicava a escrever o livro A Riqueza das Nações recolhido na sua cidade natal, e achando que viria a morrer antes de Hume, Adam Smith escreveu a ele (Correspondência 137 da Glasgow Edition, de 16 de abril de 1773) se referindo ao destino pretendido para os seus manuscritos. Nesta carta o relembrava que já havia combinado de deixar sob os cuidados de Hume todos os seus textos literários, designando-o seu testamenteiro literário e deixando instruções sobre o que fazer dos textos que se encontravam em sua casa. Deveriam ser destruídos “sem qualquer exame” todos os papéis soltos, bem como dezoito pastas de manuscritos que havia em seu quarto, preservando da destruição apenas os manuscritos da Riqueza das Nações e “uma pequena obra guardada (…) numa pasta fina na minha escrivaninha em meu quarto.” Essa pequena obra viria a ser publicada mais tarde nos Ensaios sobre Temas Filosóficos da Glasgow Edition com o título “The Principles Which Lead and Direct Philosophical Enquiries; Ilustraded by History of Astronomy” (obra que contém as linhas gerais que descrevem o método científico mais apreciado por Smith – que ele considerava ser o método de Isaac Newton).
Ocorre que Hume viria a morrer primeiro que Adam Smith (em 1776, três anos depois da referida Correspondência 137), o que inverte os papéis. Agora é Hume quem, antes de morrer, designa Smith como único executor autorizado do seu testamento literário. Isto significava que caberia a Adam Smith a tarefa de editar postumamente a autobiografia de Hume (“My own life”) e os seus “Diálogos sobre Religião Natural” – “Dialogues Concerning Natural Religion”.
No curso dos trabalhos de publicação dessa autobiografia de Hume, o editor propôs que também fossem publicadas, anexas ao texto, algumas das cartas escritas por ele.
Smith reagiu enfaticamente contra esta sugestão, alegando que esta não era a vontade do autor, que sempre se opusera à publicação de sua correspondência. Além disso, sugeriu que a publicação se restringisse a uma seleção cuidadosa da correspondência, de modo a fazer justiça à reputação e à honra de Hume, uma boa recepção pelo público acabaria servindo de estímulo a que editores imprudentes se lançassem à cata de outras cartas, compondo com elas novos volumes. E, deste modo, “seriam publicadas muitas coisas que não eram próprias para vir à luz, para a grande mortificação de todos aqueles que desejam bem à sua memória.”3
Smith relutou tanto em aceitar o encargo de editar postumamente as referidas obras do seu recém-falecido amigo, que terminou transferindo a responsabilidade para um sobrinho do próprio David Hume.
Jonathan Swift (1667 – 1745) foi um escritor anglo-irlandês que se tornou Decano (“Dean”) da Catedral de São Patrício, Dublin – daí decorrendo o seu apelido “Dean Swift”. Edmund Curll (1675-1747) foi um vendedor de livros contemporâneo de Dean Swift, especializado em publicar miscelânias poéticas, biografias carentes de credibilidade e panfletos pornográficos. Sem autorização, em 1741 Curll publicou a “Correspondência Literária de Dean Swift, durante Vinte e Quatro Anos” (“Dean Swift´s Literary Correspondence, For Twenthy-Four Years”). E o editor oficial de Dean Swift, George Faulkner, publicou, no mesmo ano Correspondências dele até 1938.
Na mesma carta referida acima (Carta 181 da “Correspondence” da Glasgow Edition, escrita em 02.12.1776, de Adam Smith para William Strahan) Smith comenta que nada havia sido mais desfavorável à apreciação do valor das obras de Dean Swift do que a publicação indiscriminada de sua correspondência.
Considerando-se o extremo zelo de Adam Smith para com a reputação póstuma de seu amigo, é razoável inferir que o mesmo tipo de preocupação, pelo menos em parte, o moveu, quando decidiu ordenar a queima de grande parte dos seus manuscritos não publicados.
Qual Teria Sido o Conteúdo dos Manuscritos Destruídos?
Como vimos anteriormente, segundo Dugald Stewart foi possível concluir que os textos destruídos consistiam, pelo menos em parte, das palestras sobre Retórica que ele leu em Edimburgo em 1748, e das aulas sobre Religião Natural e Jurisprudência que fizeram parte de seu curso de Filosofia Moral em Glasgow.
É provável que tenham sido destruidos também manuscritos de um outro projeto de obra mencionado numa carta dirigida por Smith ao Duque de La Rochefoucauld. Nessa carta, datada de novembro de 1785, Smith afirma ter reunido e organizado, nos últimos anos, boa parte do material necessário à composição de duas obras que tinha em vista: “a primeira é uma espécie de história filosófica de todos os diferentes ramos da literatura, da filosofia, poesia e eloquência; a outra é uma espécie de teoria e história do direito e do governo.” Na mesma carta, Smith admite que considerava muito incerta a efetiva realização destes dois projetos, pois sentia que aquela indolência própria dos idosos já se apossava rapidamente dele.4
Smith se refere ao projeto de obra sobre jurisprudência também nos últimos parágrafos da primeira edição do seu primeiro livro, A Teoria dos Sentimentos Morais, em 1759:
“Os raciocínios dos advogados, sobre as diferentes imperfeições e melhorias das leis de diferentes países, deveriam ter dado ocasião a um estudo sobre quais seriam as regras naturais da justiça, independentes de todas as instituições positivas. Era de se esperar que esses raciocínios os tivessem levado a estabelecer um sistema do que poderia ser corretamente chamado de ´jurisprudência natural´, ou uma teoria dos princípios gerais que deveriam ser executados, e ser a base das leis de todas as nações”.
Segundo ele, “Grotius parece ter sido o primeiro que tentou dar ao mundo algo como um sistema desses princípios que deveriam ser executados, e ser a base das leis de todas as nações. E seu Tratado das leis de guerra e paz, com todas as suas imperfeições, é talvez até hoje o trabalho mais completo que já foi feito sobre este assunto”.
Mas ele considera que a contribuição de Grotius ainda foi insatisfatória. Sendo assim, conclui declarando a seguinte intenção: “Eu deverei, em outro discurso, tentar dar conta dos princípios gerais do direito e do governo, e das diferentes mudanças que sofreram nas diferentes eras e períodos da sociedade, não apenas no que diz respeito à justiça, mas no que diz respeito à “police”, à receita e às armas, e qualquer outra coisa que seja objeto de lei”.
Porém, no Prefácio (“Advertisement”) da sexta edição amplamente revisada por ele do livro A Teoria dos Sentimentos Morais, publicada poucos meses antes da sua morte, em 1790, ele expressa o seguinte reconhecimento:
“No último parágrafo da primeira edição da presente obra, eu disse que deveria, em outro discurso, tentar dar conta dos princípios gerais do direito e do governo, e das diferentes revoluções que eles sofreram nas diferentes épocas e períodos da sociedade; não só no que diz respeito à justiça, mas no que diz respeito à police, às receitas e às armas, e o que mais for objeto de lei. Na investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações executei parcialmente esta promessa, pelo menos no que diz respeito à police, às receitas e às armas. O que resta, a teoria da jurisprudência, que há muito projeto, até então fui impedido de executar, pelas mesmas ocupações que até agora me impediam de revisar a presente obra. Embora minha idade muito avançada me deixe, reconheço, muito pouca expectativa de poder executar esta grande obra para minha própria satisfação; no entanto, como não abandonei completamente o projeto, e como ainda desejo continuar sob a obrigação de fazer o que posso, permiti que o parágrafo permanecesse como foi publicado há mais de trinta anos, quando não tinha dúvidas de poder executar tudo o que anunciava”.
Ou seja, do seu projeto de obra sobre Jurisprudência, que deveria abranger justiça, governos e economia política, ele não concretizou a primeira parte, sobre justiça. A segunda parte ele o fez por intermédio do livro A Riqueza das Nações (ele também não concretizou o projeto de publicação da obra sobre “história filosófica de todos os diferentes ramos da literatura, da filosofia, poesia e eloquência”).
Em resumo, se considera provável que os materiais destruídos incluíram textos sobre Retórica e Belas Letras, Religião Natural, Jurisprudência e um projeto inacabado de história filosófica dos diferentes ramos da literatura, filosofia, poesia e eloquência.
Manuscritos Preservados
Em suma, de todo esse projeto, apenas duas obras foram completadas e publicadas em vida do autor: A Teoria dos Sentimentos Morais, que veio ao público em 1759, e Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, em 1776. Mas é factível resgatar uma ideia de qual teria sido o conteúdo integral desse projeto de obra, de modo a se poder estabelecer a conexão entre as partes – o que é de fundamental importância para a compreensão do livro A Riqueza das Nações. Pois, acerca das aulas de Smith sobre religião natural, não há quaisquer registros disponíveis e nada se sabe concretamente. Mas, com relação aos demais temas não publicados, foi resgatado um volume considerável de informações importantes.
Na próxima postagem faremos um resumo acerca dos materiais que foram publicados postumamente.
COMUNICADO:
O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.
O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.
O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.
Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.
Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.
Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.
Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.
Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor:
Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com
REFERÊNCIAS
1. “An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations” – Volume I, General Introduction, Pg.1 – The Glasgow Edition of the Works and Correspondence of Adam Smith;2. Essays on Philosophical Subjects: Account of the Life and Writings of Adam Smith, LL.D. – by Dugald Stewart (1753 -1828) – pg. 327) – Glasgow Edition;
3. Carta 181 no livro “Correspondence” da Glasgow Edition, escrita em 02.12.1776;
4. Carta 248, no livro “Correspondence” da Glasgow Edition, escrita em 01.11.1785.



