O Livro “A Riqueza das Nações” como Tema Inseparável da Unidade da obra de Adam Smith (Quarta Parte)

A economia há muito deixou de lado seu papel de liderança no debate sobre Smith. Mas a pesquisa do pensamento de Smith como um todo tem experimentado um novo florescimento há alguns anos, parcialmente em resposta às distorções que surgiram durante a longa história da sua recepção. Um grupo jovem de pesquisa interdisciplinar, uma comunidade internacional colorida com grande proporção de revisionistas motivados, agora pegou em suas armas intelectuais contra essas distorções. A abundância de suas publicações é esmagadora. O que, claro, confirma o comentário lacônico do teórico da escolha pública Gordon Tullock: “Uma das leis econômicas mais imutáveis é que cada frase do livro A Riqueza das Nações eventualmente se tornará um livro.” 1 No entanto, essa pesquisa moderna não é mais apenas sobre esse livro, mas sobre toda a oeuvre de Smith. 2

Tornou-se estritamente necessária uma visão da unidade de todo o projeto de oeuvre que foi concebido por Adam Smith, considerando também até mesmo a parte que ele decidiu não publicar, e a parte que ele não conseguiu concluir. O livro A Riqueza das Nações só pode ser compreendido como uma parte inseparável da unidade desse projeto. Na época de Smith o tema da Economia ainda fazia parte de Filosofia Moral, que abrangia todos os temas de interesse individual e social da humanidade (enquanto a Filosofia Natural estudava a natureza). Vários filósofos, como seu ex-professor Francis Hutcheson, George Berkeley, David Hume e Joseph Butler, abordaram com certa profundidade temas da economia em suas obras sobre filosofia moral.

Recomposição Aproximada do Projeto Original de Obra

Resumindo, portanto, o conteúdo das nossas últimas postagens, os temas mais intimamente conectados do projeto de oeuvre que Adam Smith concebeu para ser realizado durante a sua vida consistiram:

  1. dos escritos que ele autorizou a preservação e foram publicados postumamente sob o título Ensays on Philosophical Subjects (com destaque de importância para “Os Princípios que Orientam e Dirigem as Investigações Filosóficas”);
  2. dos temas Lógica e Retórica, objeto de suas aulas em Edimburgo, e, em seguida, em seu primeiro ano como professor na Universidade de Glasgow, dos quais foram resgatadas e publicadas postumamente Notas de Aulas sob o título “Aulas sobre Retórica e Belas Letras Proferidas na Universidade de Glasgow por Adam Smith, anotadas por um Estudante, em 1762-63”;
  3. dos temas do curso sobre Filosofia Moral que ele ministrou a partir do seu segundo ano como professor da Universidade de Glasgow, que abrangia Religião Natural, Ética e Jurisprudência (Jurisprudência incluía Justiça e Leis, Governos e Economia Política);
  4. do projeto inacabado – e provavelmente destruído por ordem dele antes da sua morte – de uma espécie de história filosófica de todos os diferentes ramos da literatura, da filosofia, poesia e eloquência, mencionado numa carta dirigida por Smith ao Duque de La Rochefoucauld em novembro de 1785. Provavelmente, os manuscritos referentes à parte dessa obra que ele já havia escrito, juntamente com as suas notas de aulas sobre Religião Natural, estavam entre os textos que ele deu ordem para destruir e dos quais nada se conseguiu recuperar;
  5. do livro A Teoria dos Sentimentos Morais, publicado em vida, que abordou o tema da Ética;
  6. do projeto sobre “Jurisprudência”, ele concluiu somente a parte sobre Economia Política, que transformou no livro Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações (usualmente referido como “A Riqueza das Nações”), também publicado em vida. Após a sua morte foram resgatadas e publicadas notas de aulas sob o título “Aulas sobre Justiça, ´Police´, Receita Pública e Armas Proferidas na Universidade de Glasgow por Adam Smith”.

Nesse projeto havia, portanto, uma clara conexão entre todas as partes da sua obra que se tornaram ou não conhecidas:

  1. os Ensaios sobre Temas Filosóficos, especialmente “Os Princípios que Orientam e Dirigem as Investigações Filosóficas”, contendo uma visão de mundo inspirada no Cristianismo e na filosofia grega clássica, segundo a qual ética (uma forma de vida), conhecimento (sabedoria, diferente de erudição) e felicidade (Eudaimonia) eram conceitos absolutamente indissociáveis. Segundo Smith, o interesse natural dos seres humanos pela aquisição de conhecimento sobre si mesmo, o mundo e a humanidade, já se encontrava nas origens motivadoras do nascimento da filosofia natural, da filosofia moral e do próprio monoteísmo;
  2. a Religião Natural, ou Teologia Natural, que fazia parte do Curso de Filosofia Moral e cujo conteúdo era desenhado pela Universidade de Glasgow. Como procuramos demonstrar em postagens anteriores, é nosso entendimento que Smith foi um teísta convicto e que uma concepção pessoal sobre Deus exerceu grande importância na sua vida e na concepção de toda a sua obra. Ele acreditava que o monoteísmo, tal como a filosofia, surgiu como fruto de uma busca pelo conhecimento e pelo propósito de vida (teleologia). E que a teologia monoteísta poderia ser uma fonte preciosa de valores para guiar a humanidade. Por outro lado, ele criticou enfaticamente a interferência dominante do anglicanismo formal no ensino das universidades inglesas (particularmente Oxford). E sempre evitou debates públicos sobre religiões e ateísmo. Sobre o seu curso de Teologia Natural na Universidade de Glasgow ele fez questão de não deixar qualquer registro escrito para a posteridade;
  3. uma abordagem do tema da Retórica que a relacionava intrinsecamente com as necessidades da vida em sociedade, a geração de valores morais, as trocas de bens e serviços, o comércio, a obtenção e transmissão do conhecimento econômico. O tema foi objeto das suas palestras e Aulas sobre Retórica e Belas Letras;
  4. um projeto (não concluído) de história dos diferentes ramos da literatura, da filosofia, poesia e eloquência. A “Eloquência”, no contexto intelectual de Smith e da tradição escocesa, era parte da disciplina de Retórica. Abrangia a teoria e a prática da expressão em prosa e verso;
  5. uma abordagem sobre o tema da ética, expressa no livro A Teoria dos Sentimentos Morais. Trata-se de uma teoria de formação da consciência baseada na “ética das virtudes” dos antigos filósofos gregos. Mas com o acréscimo, de autoria de Smith, da tese segundo a qual a completa prática dessas virtudes demanda sempre a autoaprovação final, por meio de um “espectador imparcial”. Eticamente, é um repúdio enfático ao egoísmo predatório (“selfishness”) e uma defesa das virtudes da benevolência (amor Cristão), prudência, justiça e autocontrole, como meios para conciliar a felicidade do próprio indivíduo com a das demais pessoas da sua convivência;
  6. uma obra (inacabada) contendo os princípios universais da justiça, da governança e da economia política. Desse projeto foi completada somente a obra sobre Economia Política – o livro A Riqueza das Nações – que se propõe a demonstrar de que forma todos os países podem minimizar o problema da pobreza e da miséria, para todos os seus habitantes.

O conjunto desse projeto de obra e cada uma das suas partes foram concebidos a serviço da felicidade, da realização humana, de um propósito de vida, da Eudaimonia (a que mais tarde os filósofos passariam a se referir como “florescimento humano”). Nesse sentido, no que concerne particularmente ao livro A Riqueza das Nações, o interesse maior de Adam Smith era a redução da pobreza e da miséria para todos, e não o acúmulo interminável de riqueza material para uma parte.

Retornando às Causas da Fragmentação da Parte da Obra Publicada em Vida e Resgatada Post Morten

Como já havíamos mencionado em postagens anteriores, depois de algumas décadas da publicação do livro sobre Economia Política, em 1776, teve início uma tendência de considerá-lo uma obra separada, desconectada, do restante do projeto de oeuvre de Adam Smith. Essa tendência de fragmentação se fortaleceu pelo menos até meados do século XX e ainda permanece relevante até hoje, não obstante a animadora tendência de revisão, nas últimas décadas.

Já havíamos mencionado em postagens anteriores alguns dos motivos que foram causas históricas dessa fragmentação. Uma relação mais completa é a seguinte:

  1. o fato de que Adam Smith não conseguiu completar e publicar todo o seu projeto de oeuvre, conforme relatamos anteriormente. Diante disso, é inevitável que tenha havido uma maior dificuldade para compreensão acerca da unidade e interconexões da parte da obra que foi concluída e publicada. Por exemplo, o projeto de obra não concluído sobre princípios universais de Justiça e Leis, que seria parte da Jurisprudência, teria feito uma importante e nítida conexão entre o tema da justiça e os livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Ou seja, entre ética, justiça e economia;
  2. o enorme sucesso do livro sobre economia política contribuiu para deixar em segundo plano o interesse pela sua obra filosófica anterior (principalmente por parte dos economistas);
  3. o crescente interesse pelas chamadas ciências positivas a partir do iluminismo (mesmo no campo das ciências sociais, com destaque para a economia), em detrimento da metafísica, da ética e da própria filosofia;
  4. o fato de que na época de Adam Smith não era usual que escritores fizessem autocitações. Por exemplo, no livro a Teoria dos Sentimentos Morais, cujo tema é a Ética, ele apresenta os princípios que devem prover suporte moral para o comportamento de todas as pessoas – inclusive os agentes econômicos nos mercados, voltados para a geração de riqueza. Mas no livro A Riqueza das Nações ele não faz qualquer citação de passagens da sua autoria contidas no Teoria dos Sentimentos Morais. Dessa forma, pessoas que leem apenas o livro A Riqueza das Nações – ou o leem sem conectá-lo pelo menos com o livro A Teoria dos Sentimentos Morais – tendem a concluir que Adam Smith era partidário de uma ciência econômica amoral;
  5. o surgimento na Alemanha, em meados do século XIX, da falsa tese que ficou conhecida como “Das Adam Smith Problem” (“O Problema Adam Smith”), segundo a qual haveria uma contradição incontornável entre proposições importantes dos livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações acerca da natureza humana;
  6. apesar da importância atribuída por Adam Smith à retórica, existem algumas dificuldades da compreensão do significado de algumas expressões e conceitos de importância crucial no livro A Teoria dos Sentimentos Morais (por exemplo, os conceitos de “Simpathy”, “Propriety” e “Self-Interest”). O que também contribui para dificultar a compreensão da relação entre esses dois livros sobre Ética e sobre Economia.

O Pensamento de Adam Smith e o Capitalismo Moderno e Contemporâneo

É muito usual o entendimento de que Adam Smith foi “o pai do capitalismo”. Mas o sistema econômico que passou a ser chamado de “capitalismo” nasceu décadas depois da sua morte. E como já dissemos anteriormente, não há, em toda a obra de Smith, uma referência sequer à palavra “capitalismo”. E nem à expressão “Laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer, le monde va de lui-même” –  “Deixai fazer, deixai ir, deixai passar, o mundo vai por si mesmo”, que teria sido pronunciada pela primeira vez no final do século XVII.

Deixaremos para examinar o que há de semelhança e de diferenças entre o pensamento de Smith e o capitalismo moderno e contemporâneo somente depois que concluirmos a abordagem ora em andamento do livro A Riqueza da Nações. Mas, por enquanto, é interessante observar a relação entre a visão filosófica e econômica de Adam Smith contida no seu projeto de oeuvre, que descrevemos acima, com a de uma brilhante economista americana contemporânea chamada Deirdre N. McCloskey.

Em resumo, McCloskey considera que há sete artes liberais indispensáveis para a teoria econômica moderna, que formam o núcleo do seu projeto de “economia humanista”: Retórica, Lógica, Gramática, História, Filosofia/Ética, Literatura e Teologia.

O tema da Retórica e sua importância para a teoria econômica é tratado com notável destaque na obra de McCloskey.3 A inclusão da Teologia como uma das “artes liberais” corresponde a um reconhecimento de que a religião monoteísta pode ser tão útil quanto a filosofia moral para a consideração da inegável importância dos valores humanos para a Economia.

COMUNICADO:

O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.

O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.

O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.

Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.

Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.

Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir desta postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor: 

Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

REFERÊNCIAS

1. Tullock, G. (1969), The new theory of corporations, in: E.W. Streissler et al. (eds.), Roads to Freedom: Essays in Honour of Friedrich A. von Hayek, London, Routledge, pg. 287;
2. Horn, Karen. “Challenging the clichés: How recent scholarship refreshes the interpretation of Adam Smith’s oeuvre” Perspektiven der Wirtschaftspolitik. https://doi.org/10.1515/pwp-2023-0055;
3. No seu livro “The Rhetoric of Economics” (Universityof Wisconsin Press, segunda edição, 1998), Deirdre N. McCloskey deixa transparecer claramente que sua defesa da Retórica como um dos fundamentos da Economia é uma continuação do projeto humanista de Adam Smith.

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