Adam Smith, Renascimento e Iluminismo (Décima Segunda Parte)

“A atenção sustentada recente ao que se encontra por trás da (metáfora da) mão invisível de Adam Smith não resolveu seu significado. Em particular, o status da interpretação dominante mais antiga, de que seria a mão de Deus, permanece obscuro. Este artigo argumenta que uma compreensão mais sutil da ação divina, retirada da visão de Isaac Newton sobre a providência especial e geral, é a chave para entender a mão invisível de Smith. A mão invisível é a mão providencial especial de Deus, que trabalha para manter a estabilidade do sistema, por exemplo, restringindo a desigualdade e mantendo o capital em casa. Ver a mão dessa maneira esclarece sua relação com o argumento mais amplo de Smith sobre as consequências não intencionais da ação humana motivada pelo interesse próprio, numa economia livre. Paul Oslington1

Ainda seguimos examinando de que forma Adam Smith lidou em sua obra com a motivação iluminista de se promover a separação entre ciência e religião. Esse exame será útil também para a compreensão sobre a visão dele acerca do próprio conceito de ciência, das suas possibilidades e limitações.

Vimos na postagem anterior que a análise desse tema na obra de Adam Smith demanda que se tenha em mente uma distinção entre dois dos significados que podem ser atribuídos à palavra religião – ou religiosidade: 1. Religiosidade no sentido de adesão a alguma religião institucionalizada, aceitando sem reservas a sua teologia, seus dogmas e seu clericalismo; 2. Religiosidade no sentido de se ter alguma concepção pessoal sobre Deus, mesmo que racionalmente inexprimível, não obstante, de fundamental importância, para a visão de mundo e forma de vida de quem a concebe.

Expressamos a opinião de que Adam Smith foi uma pessoa religiosa durante toda a sua vida adulta. Mas apenas no segundo sentido, dentre os dois mencionados acima. Nesse sentido se pode compreender que no seu livro sobre filosofia e ética, A Teoria dos Sentimentos Morais, ele tenha citado Deus, com diferentes designações, dezenas de vezes. Ou seja, nesse livro, as suas proposições são primeiramente filosóficas, mas a elas ele eventualmente acresce proposições que refletem a sua concepção pessoal sobre Deus. Essa é uma característica muito particular do papel da “religiosidade” na obra de Adam Smith. Como foi, também, na de Newton.

Religião, Deus e Ciência no Livro A Riqueza das Nações

Já no livro A Riqueza das Nações Smith apresenta uma teoria econômica nada dependente de princípios de religiões institucionalizadas, e, agora, também sem uma única referência direta a Deus. Conforme já ressaltamos anteriormente, Smith adotou para o estudo da Filosofia Moral, que abrangia Economia Política, o mesmo método indutivo de Isaac Newton, quem, a partir da observação da natureza, descobria padrões e os identificava como leis físicas, expressas em linguagem matemática. Smith elaborava hipóteses para a formulação das suas teorias tendo em vista uma certa concepção filosófica sobre a natureza humana,que teve influências do seu ex-professor de Filosofia Moral, Francis Hutcheson (o que será objeto de análise específica mais adiante, pois é de importância crucial para a elucidação dos mal-entendidos em torno da sua concepção sobre o egoísmo); e da observação do padrão de comportamento real das pessoas.

Esse tipo de abordagem pode ser percebido já pela leitura do primeiro parágrafo do seu livro A Teoria dos Sentimentos Morais: “Por mais egoísta que se possa supor o homem, há evidentemente alguns princípios em sua natureza que asseguram que ele se interesse pela sorte dos outros, e tornam a felicidade dos outros necessária para ele, embora nada dela derive, exceto o prazer de vê-la. Desse tipo é a piedade ou a compaixão, a emoção que sentimos pela miséria alheia, quando a vemos, ou somos levados a concebê-la de maneira muito viva. Que muitas vezes derivamos tristeza da tristeza alheia, é uma questão de fato óbvia demais para exigir quaisquer instâncias para prová-la. Pois este sentimento, como todas as outras paixões originais da natureza humana, não está de modo algum confinado aos virtuosos e humanos, embora talvez possam senti-lo com a mais requintada sensibilidade. O maior rufião, o mais endurecido violador das leis da sociedade, não está completamente sem ele.”2

Um dos mais conceituados estudiosos contemporâneos da obra de Adam Smith chama a atenção para várias passagens no livro A Riqueza das Nações onde há indicações de que, enquanto a escrevia, ele pesquisava informações sobre a vida dos pobres, seja por meio de conversas com seus empregadores, seja por meio de visitas diretamente a esses pobres. Ou seja, ele teria usado o que hoje se denomina “pesquisas de campo”, como um dos meios de obtenção de evidências empíricas para auxiliarem na formulação da sua teoria econômica, algo inteiramente original para o século XVIII, ou mesmo para as décadas seguintes.3

Ele fez também intenso uso da História, pesquisando e relatando fatos que fornecem evidências para servirem de suporte às suas proposições.

Essas são ilustrações dos motivos pelas quais o livro A Riqueza das Nações fez jus a ser amplamente considerado a obra fundadora da moderna ciência econômica.

A Metáfora da “Mão Invisível” e Deus

Dissemos que Smith não fez uma única referência direta a Deus, no livro A Riqueza das Nações. Contudo, o autor da citação que fizemos na abertura dessa postagem é apenas um exemplo de parte dos estudiosos da obra de Adam Smith para quem, com a metáfora da “mão invisível”, ele tinha em mente, na verdade, a atuação providencial de Deus. Mas, nesse caso, a expressão “mão invisível” é usada por ele em três das suas obras: Ensaios sobre Temas Filosóficos, A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. E em nenhuma delas ele afirma que seria uma metáfora para representar a mão de Deus.

Por enquanto vamos adiantar apenas que a citação que fizemos na abertura desta postagem nos parece correta. Como já vimos, Adam Smith tinha grande apreço pelo pensamento de Isaac Newton e do seu professor de Filosofia Moral Francis Hutcheson, que acreditavam numa ordem moral natural guiada por Deus. E também por Zeno de Citium, fundador do Estoicismo, para quem Deus é o Logos, uma razão cósmica que estrutura e harmoniza o universo.Consideramos que, pelo menos nos livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações, a expressão “mão invisível” é uma metáfora usada pelo autor para representar a atuação providencial de Deus, embora ele não afirme isso.

Mas desde já ressaltamos que Adam Smith jamais pretendeu afirmar que esse providencialismo, representado metaforicamente pela “mão invisível”, seria uma panaceia para todos os problemas econômicos – seja do ponto de vista apenas da eficiência, seja considerando também a justiça social. Retomaremos esse assunto de forma mais aprofundada quando viermos a analisar os livros A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações, mais adiante.

Na próxima postagem examinaremos evidências da forma como Adam Smith teria encarado a tendência da ciência econômica (e das ciências modernas em geral) para a especialização. Com isso concluiremos a nossa análise, feita ao longo das últimas postagens, sobre a forma como ele lidou com a proposta de Francis Bacon de separação entre ciência e religião. Abordaremos, de maneira bem mais concisa, então, de que forma ele se posicionou frente a duas outras motivações do iluminismo: a separação entre religião e Estado (laicismo); e a valorização de uma auto ética – uma ética mais dependente da razão individual e menos de regras morais ou religiosas pré-estabelecidas.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

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Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

REFERÊNCIAS

1. “Ação Divina, Providência e Mão Invisível de Adam Smith”, por Paul Oslington, 2007. Professor de Economia, Universidade de NotreDame Austrália, 104 Broadway, Sydney. Pesquisador Visitante, Centro Teológico Nacional de São Marcos e Centro Australiano de Cristianismo e Cultura, Canberra 2600;
2. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, Glasgow Edition, I.i.1.1.;
3. Ver Samuel Fleishacker, “On Adam Smith´s Wealth of Nations”, Princeton University Press, 2004, pgs. 39-40.

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