Adam Smith, Renascimento e Iluminismo (Décima Quinta Parte)

“Quais eram as crenças religiosas de Adam Smith? Os estudiosos discordam veementemente sobre esse assunto. Alguns dizem que ele era ateu, ou pelo menos um cético religioso radical, como seu amigo David Hume. Outros acham que ele acreditava em algum tipo de Deus, mas se afastou do cristianismo quando envelheceu. E ainda outros acham que ele foi cristão tradicional a vida toda. As grandes diferenças entre essas visões podem refletir, em parte, as crenças religiosas ou antirreligiosas dos estudiosos que as defendem. Mas também refletem dificuldades reais em ler Smith Samuel Fleischacker1

Os temas que abordamos e as proposições que fizemos neste Blog desde julho de 2025 até aqui podem ser resumidos da seguinte forma:

  1. A história do pensamento econômico é necessária para que se possa compreender o caminho percorrido pela Teoria Econômica e pelos sistemas econômicos, desde as suas origens até o presente; e como aprimorá-los em benefício da humanidade, não somente sob critérios de eficiência econômica, mas também de Ética e Justiça;
  2. Ao longo das últimas décadas tem se observado um significativo e crescente interesse pela obra de Adam Smith, amplamente considerado o fundador da Teoria Econômica Moderna. Esse crescente interesse tem resultado, em boa parte, do reconhecimento de que, durante uns dois séculos, essa obra foi objeto de grandes mal-entendidos, inclusive (e talvez, especialmente) por parte dos economistas;
  3. A gradual superação dos mal-entendidos vai revelando a unidade de uma obra filosófica e econômica capaz de aportar relevante contribuição para alguns dos temas mais importantes dos debates contemporâneos;
  4. A nosso ver, dentre as controvérsias que ainda persistem sobre o pensamento e proposições de Smith, um dos mais importantes diz respeito à sua concepção sobre Deus e religião, e a influência dessa concepção sobre a sua obra, conforme citação que fizemos na abertura da presente postagem;
  5. Ao longo das últimas postagens temos nos dedicado a descrever o nosso entendimento sobre o tema dessas controvérsias, antes de iniciarmos propriamente o exame da unidade da obra de Adam Smith.

Nesta postagem faremos um breve exame das semelhanças e diferenças mais importantes entre as concepções de Adam Smith e Immanuel Kant sobre Deus e Religião.

Referência: Concepção de Immanuel Kant sobre Deus e Religião

Vimos que desde a sua infância até o primeiro estágio da sua formação filosófica Kant sempre teve forte conexão com a religião institucionalizada. No terceiro estágio, onde alcança a maturidade intelectual e filosófica, tendo sido fortemente influenciado pelo cético David Hume, ele muda substancialmente as suas concepções sobre Deus e religião. Em que sentido?

Kant passa a afirmar que não é possível demonstrar a existência de Deus por meio da razão pura. E rejeita também as afirmações e dogmas das religiões reveladas. Nas obras Crítica da Razão Prática e A Religião nos Limites da Simples Razão ele afirma que o que pode ser fruto da razão prática é a moralidade autônoma. E essa moralidade precede a religião.

Para Kant,a ideia de Deus e da imortalidade da alma seriam postulados da razão prática, necessários para dar sentido à moralidade e à busca pelo Sumo Bem. Postulado significa uma tese que é aceita sem prova, mesmo não sendo evidente. Nesse contexto kantiano, são ideias que a razão prática precisa assumir como verdadeiras para que a moralidade faça sentido e seja plenamente realizável.

Os três principais postulados para Kant são: 1. A liberdade — para que possamos agir moralmente, precisamos ser livres; 2. A imortalidade da alma — para que o progresso moral seja possível ao longo da existência; 3. A existência de Deus — como garantia da realização do Sumo Bem (união entre virtude e felicidade).

Em resumo: para Kant, não é a religião que assegura a moralidade. A moralidade resulta do uso da razão prática, do senso de dever (ética deontológica) e é necessária para o sumo bem. Mas o progresso moral e a realização do sumo bem não são assegurados nesta vida. É essa incompletude que demanda (postula) a liberdade individual, a imortalidade da alma, a existência de Deus e a religião.

Adam Smith Estaria de Acordo com Kant sobre esse Tema?

Não há controvérsias quanto ao fato de que, para Kant, a moralidade é fruto da razão prática, enquanto, para Smith (e Shaftesbury, Hutcheson e Hume), a sua fonte primária são “sentimentos”. Essa é uma discordância importante e amplamente reconhecida. Já quanto à relação entre moralidade, Deus e religião, entre os mais respeitados estudiosos contemporâneos da obra de Adam Smith há quem considere que ele estaria de acordo com Kant.2 Essa opinião se apoia em certos comentários de Smith no livro A Teoria dos Sentimentos Morais, como os seguintes:

“Nossa felicidade nesta vida é, portanto, em muitas ocasiões, dependente da humilde esperança e expectativa de uma vida futura… Que há um mundo por vir, onde a justiça exata será feita e cada homem será colocado junto com aqueles que, nas qualidades morais e intelectuais, são realmente iguais a ele; onde o proprietário daqueles humildes talentos e virtudes que, por serem deprimidos pela sorte, não tiveram, nesta vida, nenhuma oportunidade de mostrá-las; …onde aquele mérito modesto, silencioso e desconhecido, será colocado em um nível às vezes acima daqueles que, neste mundo, gozavam da mais alta reputação, e que, com a vantagem de sua situação, foram capazes de realizar as ações mais esplêndidas e deslumbrantes. É uma doutrina, em todos os aspectos tão venerável, tão confortável para a fraqueza, tão lisonjeiro para a grandeza, da natureza humana, que o homem virtuoso que tem a infelicidade de duvidar dela, não pode deixar de desejar, com mais sinceridade e ansiedade, nela passar a acreditar.”3

De fato, esses comentários descrevem o reconhecimento de Smith no sentido de que, nesta vida, não há garantias de que sempre seja feita justiça em relação a vícios e virtudes. Portanto, a esperança de que essa justiça venha a ser assegurada depende da crença em Deus e em outra vida. Mas com isso Smith não quis dizer, como Kant, que a crença em Deus e na imortalidade da alma – dogmas das religiões – resulta dessa constatação (são postulados da razão prática e da moralidade). Pelo contrário, para Smith, antes de tudo há que se considerar a existência de um Deus providencial, que quer a felicidade de toda a sua criação e permite que os seres racionais possam ter acesso aos seus desígnios sobre a moralidade – requisito para essa felicidade.

Numa interpretação superficial, o significado do Observador Imparcial de Smith pode ser comparado ao “Juiz Interior” de Kant e ao “Superego” de Freud. Ou seja, uma metáfora para a consciência moral humana. Mas uma enorme diferença precisa ser necessariamente reconhecida quando se lê, literalmente, as palavras do próprio Adam Smith sobre o seu “Observador Imparcial”. Por exemplo:

“… embora o homem tenha sido, dessa maneira, considerado o juiz imediato da humanidade, ele foi situado assim apenas em primeira instância (essa primeira instância a que Smith se refere aqui diz respeito ao “Observador” do sistema moral de Hume) existe um recurso de sua sentença a um tribunal muito superior, ao tribunal de sua própria consciência, à do suposto espectador imparcial (este é o “observador” de Adam Smith, ao qual ele acrescentou a qualificação “imparcial”) e bem-informado, do homem dentro do peito, o grande juiz e árbitro de sua conduta. As jurisdições desses dois tribunais são fundadas em princípios que, embora em alguns aspectos semelhantes, são, no entanto, na realidade, diferentes. A jurisdição do homem exterior é fundada inteiramente no desejo de louvor e na aversão a repúdio. A jurisdição do homem interior é totalmente fundamentada no desejo de louvor merecido e na aversão a repúdio merecido… O suposto espectador imparcial de nossa conduta parece dar sua opinião a nosso favor com medo e hesitação. Quando todos os reais espectadores, quando todos aqueles com cujos olhos e de cuja posição ele se esforça para considerar, são unânime e violentamente contra nós. Em tais casos, esse semideus dentro do peito aparece, como os semideuses do poetas, embora em parte de extração imortal, mas em parte também de extração mortal. Quando seus julgamentos são firmemente dirigidos pelo senso de louvor e merecimento, ele parece agir de acordo com sua divina extração. Mas quando ele se deixa surpreender e confundir pelos julgamentos do homem ignorante e fraco, ele descobre sua conexão com a mortalidade, e parece agir adequadamente, mais para a humana, do que para a divina, parte de sua origem.”4

“Mas agindo de acordo com os ditames de nossas faculdades morais, buscamos necessariamente os meios mais eficazes para promover a felicidade da humanidade e, portanto, pode-se dizer, em certo sentido, cooperar com a Divindade e avançar até onde estiver nosso poder o plano da Providência. Agindo de outra forma, ao contrário, parecemos obstruir, em alguma medida, o esquema que o Autor da natureza estabeleceu para a felicidade e perfeição do mundo, e para nos declararmos, se assim posso dizer, em certa medida, os inimigos de Deus.”5

“Uma vez que estes (princípios morais), portanto, foram claramente destinados a serem os princípios governantes da natureza humana, as regras que eles prescrevem devem ser consideradas como os mandamentos e leis da Divindade, promulgados por aqueles vices regentes que ele estabeleceu dentro de nós.”6

Há convergências importantes entre alguns aspectos de ideias filosóficas de Immanuel Kant e de Adam Smith e iremos abordá-las mais adiante. Mas certamente este não é o caso no que concerne ao tema da moralidade e da relação entre moralidade, Deus e religião.

A “Mão de Deus” na Obra de Isaac Newton e a “Mão Invisível” na Obra de Adam Smith

Isaac Newton (1642–1727) desenvolveu a mecânica clássica e a lei da gravitação universal, oferecendo uma explicação matemática precisa para os movimentos planetários. Contudo, certas questões, como a origem do movimento inicial dos corpos ou a estabilidade eterna do sistema solar, não podiam ser explicadas apenas pelas leis mecânicas. Newton acreditava que o universo era obra de um Criador racional. Para ele, Deus não apenas criou o mundo, mas também intervinha ocasionalmente para manter a ordem cósmica.

Newton concluiu que a regularidade dos movimentos planetários não poderia ser explicada apenas pela física, exigindo a interferência divina como um princípio explicativo complementar, garantidor da perfeição e da estabilidade da ordem natural. Comentadores posteriores da obra de Newton passaram a chamar essa postura de apelo à “mão de Deus”, querendo dizer que Newton recorria a Deus para explicar aspectos que sua física não conseguia explicar completamente.

Já no caso de Smith a expressão “mão invisível” foi usada por ele mesmo, E alguns dos estudiosos da sua obra entendem que, embora de maneira não explícita, Smith considerava essa “mão invisível” como sendo “a mão de Deus” (embora Smith nunca tenha sido explícito sobre isso). Não obstante, há diferenças fundamentais entre o significado e papel atribuídos por Smith à “mão invisível” na sua obra, e aqueles atribuídos por Newton à sua “mão de Deus”.

Como dissemos, Newton apelou para a existência de Deus como um recurso para explicar algo que a sua física não conseguia explicar. Adam Smith jamais usou a metáfora da “mão invisível” com esse objetivo. Como também não usou a concepção de um Observador Imparcial “de extração parcialmente divina” como um recurso para explicar algo que a sua filosofia moral não conseguia explicar. Aliás, na obra A Riqueza das Nações, Smith não fez, diretamente, uma referência sequer a Deus. E vários filósofos contemporâneos também consideram que o “Observador Imparcial”, na obra A Teoria dos Sentimentos Morais, é um recurso para se referir a faculdades da consciência humana profunda acerca das quais também existem evidências.

Finalmente, há que se considerar que, diferentemente de Newton, Adam Smith jamais teve a intenção de demonstrar a existência de Deus.

Finalmente, há duas observações importantes sobre falsas interpretações usualmente atribuídas à metáfora da “mão invisível”, na obra de Smith: 1. A metáfora ilustra a transformação em benefícios públicos, extensivos aos mais pobres, de ações dos agentes econômicos movidas exclusivamente pelo interesse pessoal. Mas por interesse pessoal legítimo, e não vícios e crimes. Para Smith, vícios e crimes não podem ser transformados em benefícios públicos, como queria Bernard Mandeville. E devem ser rigorosamente combatidos pela justiça comutativa e penal; 2. Adam Smith jamais pretendeu que o fenômeno ilustrado pela metáfora da “mão invisível”, amplamente explicado por ele com argumentos empíricos, fosse uma panaceia para todos os males econômicos e injustiças sociais.

Aqui concluímos a nossa avaliação preliminar sobre a concepção de Adam Smith acerca de Deus e da religião e da influência que exerceu sobre a sua obra.

COMUNICADO:

O livro “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, mais conhecido resumidamente como “A Riqueza das Nações”, é a obra mais famosa de Adam Smith. Composta por 5 livros (ou partes), foi publicado pela primeira vez em Londres, em março de 1776, pela casa editorial de William Strahan e Thomas Caldell. Uma segunda edição foi lançada em fevereiro de 1778, seguida por mais três: em 1784, 1786 e 1790, sendo esta a última edição feita em vida pelo autor.

O livro é amplamente reconhecido como um dos mais importantes da história. Ele aparece com frequência em listas sérias de obras mais influentes do pensamento ocidental, como a Modern Library, Great Books ofthe Western World e a Harvard Classics.

O estudo “Adam Smith Across Nations”, publicado pela Oxford University Press, é hoje a fonte mais sólida sobre a circulação internacional de A Riqueza das Nações. Foram produzidas centenas de edições e traduções do livro após a morte de Adam Smith, em muitos países e em pelo menos 18 idiomas. O livro é considerado o mais traduzido da história da economia.

Estamos agora nos primeiros dias do ano 2026. E 2026 – 1776 = 250. Ou seja, este ano marca o aniversário de 250 anos da publicação do livro A Riqueza das Nações.

Eventos de celebração desse aniversário ocorrerão ao longo do corrente ano, em vários países.

Quanto a nós, levaremos em conta uma constatação de amplo reconhecimento nas últimas décadas: a de que a leitura desse livro de forma separada foi a principal causa de numerosas controvérsias e mal-entendidos a seu respeito, e do pensamento do seu autor. Assim, a partir da próxima postagem, passaremos a abordar as proposições contidas no livro não de forma separada, mas, sempre que possível, relacionando-as com a unidade da obra do filósofo moral Adam Smith.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor: 

Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

REFERÊNCIAS

1. Fleischacker, Samuel. Adam Smith on Religion. Adam Smith Works, 5 ago. 2020. Disponível em: https://www.adamsmithworks.org/documents/adam-smith-ob-religion
2. “Adam Smith on Religion” – Samuel Fleischacker;
3. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, III.2.32;
4. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, III.2.32;
5. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais III.5.7;
6. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais III.5.6.

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