Adam Smith, Renascimento e Iluminismo (Décima Quarta Parte)

“O que eles, eu e você precisamos é o que falta em uma ciência econômica que estuda A Riqueza das Nações, mas ignora a Teoria dos Sentimentos Morais: AMOR Deirdre McCloskey1

Quanto à influência da concepção de Adam Smith sobre Deus e religião sobre a unidade da sua obra nos resta examinar o seu pensamento sobre a separação entre Ética e religião – que correspondia à demanda iluminista pela adoção de uma moralidade autônoma!

O que é a Moralidade Autônoma Demandada pelo Iluminismo?

Para a Igreja Católica, a vida cristã deve se sustentar nas chamadas “virtudes teologais” – Fé, Esperança e Caridade (Amor) – e se organizar pelas chamadas “virtudes cardeais” (Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança). Juntas, essas virtudes formam o alicerce da moral cristã. Mas Fé é acreditar em Deus e em tudo o que Ele revelou, confiando na Igreja como transmissora dessa verdade. E Esperança é esperar confiantemente a vida eterna e as graças necessárias para alcançá-la. Ou seja, a moralidade cristã (ou das religiões monoteístas) depende, antes de tudo, da fé e de dogma. E se interessa mais pela vida eterna do que pela felicidade apenas nessa vida mundana.

Já a ética das virtudes tem origem nos principais filósofos gregos. Para eles, a felicidade (Eudaimonia) é uma forma de vida mundana virtuosa. E para Aristóteles, por exemplo, uma das principais funções dos governantes deveria ser ensinar essas virtudes a todos os cidadãos.

Assim, sob essas visões, a moralidade era sempre algo a ser ensinado. A proposição iluminista a que estamos nos referindo como “separação entre moralidade e religião” consistiu na mudança de ênfase numa moralidade ensinada para uma moralidade autônoma. Ou seja, a moralidade de cada indivíduo passaria a ter fundamento nele mesmo – por meio da Razão. Boa parte dos iluministas propugnava que a razão individual seria suficiente, não somente para tornar clara a necessidade da moralidade, mas também para indicar em que ela deveria consistir.

Em tese, o ser humano que conhece e pratica uma autêntica moralidade autônoma já não precisaria mais viver num mundo do prêmio e castigo, onde as decisões sobre o que fazer algumas vezes são meros resultados de avaliações de custo/benefício materiais. A crença de que um dia possamos viver numa sociedade onde prevaleça uma autêntica moralidade autônoma segue sendo, na melhor das hipóteses, uma “utopia para realistas”. Mas nos parece que foi essa moralidade autônoma que passou a interessar aos iluministas.

O “Observador Imparcial” de Adam Smith e o “Imperativo Categórico” de Immanuel Kant têm a ver com o estudo dessa moralidade, mesmo que apenas em tese – ou seja, como as coisas deveriam ser. Mas no seu livro sobre Ética, A Teoria dos Sentimentos Morais, Smith também leva em conta o que acontece quando, na prática mundana, não somos capazes de vivenciar essa moralidade autônoma. Por exemplo, quando nos sentimos deslumbrados e dominados pela motivação de acúmulo sem limites de poder e riqueza material.

Ressalva Prévia Necessária: Ética e Moralidade não são Sinônimos

É muito comum o uso das palavras Ética e Moralidade como se fossem sinônimos. Mas é necessário que seja enfatizada a diferença que precisamente existe entre elas.

O primeiro livro publicado por Adam Smith, “A Teoria dos Sentimentos Morais”, foi sobre Ética, que é um ramo da Filosofia Moral. Vejamos o que diz o próprio Adam Smith sobre o objeto de estudo desse livro – ou seja, qual é o objeto de estudo da Ética:

“No trato dos princípios da moral há duas questões a serem consideradas. Primeiro, em que consiste a virtude? Ou qual é o tom de temperamento e o teor da conduta que constitui o caráter excelente e digno de louvor, o caráter que é o objeto natural de estima, honra e aprovação? E, em segundo lugar, porque poder ou faculdade na mente esse caráter, seja ele qual for, nos é recomendado? Ou, em outras palavras, como e por que meios acontece que a mente prefere uma forma de conduta a outra? Denomina uma certa e outra errada? Considera uma como objeto de aprovação, honra e recompensa, e a outra de culpa, censura e punição?”2

Ou seja, a Ética é um ramo da Filosofia Moral cujo objeto de estudo é a Moralidade.

Por que Tomar Immanuel Kant como Referência para a Posição de Adam Smith sobre a Ética Autônoma?

Observe-se que Kant nasceu apenas 01 ano depois de Adam Smith. Há uma ampla aceitação de que ele foi um dos mais influentes Filósofos Morais da história. Os admiradores mais entusiastas de Kant entendem que, na sua época, ele fez com a Filosofia uma verdadeira revolução, semelhante à que Nicolau Copérnico fez com as ciências.

Kant nasceu, viveu e morreu em Königsberg (atual Kaliningrado, Rússia), naquela época pertencente ao Reino da Prússia. Ele nunca deixou a Prússia e raramente saiu da cidade natal. Na sua infância e juventude viveu no seio de uma família modesta e muito devota ao luteranismo. A sua formação filosófica costuma ser dividida em três períodos. No primeiro, após passar a adolescência estudando num colégio luterano, Kant vai para a Universidade de Königsberg, em 1740. Mas o seu pai morreu em 1746, forçando-o a abandonar a universidade por quase dez anos (período ao longo do qual foi obrigado a trabalhar como tutor de filhos de famílias ricas). Pôde então retornar à Universidade de Königsberg em 1754, onde, no ano seguinte, concluiu o doutorado em Filosofia. Foi nomeado professor livre (não titular), passando a lecionar disciplinas como Lógica, Metafísica e Filosofia Moral. Em 1770, foi finalmente nomeado professor titular da cátedra de Lógica e Metafísica dessa mesma Universidade, posição que manteve até o fim de sua vida. A importância que teve a Universidade de Königsberg para Kant foi, no mínimo, tão grande quanto a que a Universidade de Glasgow teve para Adam Smith.

O 2º período vai de 1771 até 1780.  Esse período da vida de Kant é chamado de “Década Silenciosa” porque, ele quase não publicou obras, se dedicando ao estudo e à reflexão. Esse silêncio editorial não significou inatividade, mas sim um mergulho profundo em estudos e reflexões filosóficas, especialmente sobre os limites do conhecimento humano.

No terceiro período o silêncio foi rompido, inicialmente com a publicação da Crítica da Razão Pura (1781). Para Kant, a Razão Pura trata dos limites da razão teórica – o que podemos conhecer? Chega à conclusão de que somos capazes de conhecer os fenômenos, mas não“as coisas em si” (que ele chamou de “númeno”). Ele reconhece também que a Razão Pura não é capaz de demonstrar a existência de Deus e da alma, o que era pressuposto da Religião Natural (que grande parte dos iluministas propugnava que deveria substituir a religião tradicional, baseada na fé).

Em 1785 ele publica “A Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, amplamente considerada a mais importante obra já escrita sobre Filosofia Moral. É nesta obra que Kant apresenta conceitos chave da sua Ética, como a “Boa Vontade” e o “Imperativo Categórico”.

Em 1788 é a vez da “Crítica da Razão Prática” (1788), que complementa a Fundamentação da Metafísica dos Costumes: “Como devo agir?” Enquanto a Crítica da Razão Pura mostra os limites do conhecimento teórico, a Crítica da Razão Prática mostra as possibilidades do agir moralmente. Introduz o “imperativo categórico” como princípio supremo da moralidade: agir apenas segundo máximas que possam ser universalizadas. Ou seja, para Kant a Razão Prática é capaz de fundamentar uma autêntica moralidade individual autônoma.

A “Crítica da Faculdade de Julgar” é publicada em 1790 (ano da morte de Adam Smith). Obra estética e teleológica onde se pergunta: “O que me é permitido esperar?”. Em 1793, é publicada “A Religião nos Limites da Simples Razão”, onde ele explora a relação entre moralidade e religião.

Em suma, entre 1781 e 1804, Kant constrói um sistema filosófico completo, que une ciência, ética e estética.

Kant e os “Filósofos Morais Sentimentalistas”

Relembremos que Adam Smith entrou na Universidade de Glasgow, em seu país natal, a Escócia, em 1746, quando tinha 14 anos de idade. No ano seguinte se tornou aluno, naquela Universidade, do Filósofo Moral de nacionalidade irlandesa, Francis Hutcheson (1694 – 1746), que conquistou a sua admiração pessoal e exerceu grande influência sobre o seu pensamento filosófico.

Os estudiosos criaram uma categoria de filósofos do século XVIII que chamaram de “Filósofos Sentimentalistas”. Hutcheson e o 3.º Conde de Shaftesbury (Anthony Ashley-Cooper, 1671 – 1713) foram considerados os seus precursores, enquanto David Hume e Adam Smith também foram incluídos. Qual o motivo pelo qual esses quatro filósofos contemporâneos no século XVIII fariam jus ao título de “sentimentalistas”? Seria que todos eles considerariam que a fonte primária de conhecimento dos valores morais não é a Razão, como queria Kant e outros iluministas, mas sim “sentimentos”. Ocorre que a palavra “sentimentos” nesse contexto não tinha precisamente o mesmo significado para Hutcheson, Hume e Adam Smith. Uma consequência inevitável é que há, também, diferenças muito relevantes entre as ideias de Hutcheson, Hume e Adam Smith sobre o tema da ética e da moralidade.

Por enquanto vamos nos ater à informação de que Hutcheson e Shaftesbury introduziram na Alemanha o debate sobre os “sentimentos morais”, provavelmente durante o segundo período de formação do pensamento filosófico de Kant – a década de 1770.3 Mas a principal influência desses “filósofos sentimentalistas” da Escócia (David Hume e Adam Smith) e da Irlanda (Francis Hutcheson) sobre Kant veio mesmo foi de Hume. É o próprio Kant quem afirma que Hume o influenciou ao ponto de tê-lo despertado do que ele chamou de “sono dogmático”,condição na qual ele se encontrava, na sua própria opinião,durante o primeiro período do seu pensamento filosófico. Mas qual terá sido mais precisamente essa influência?

David Hume e Immanuel Kant

Quando Kant ingressou na Universidade de Königsberg em 1740, ele se tornou discípulo do filósofo Martin Knutzen, que era admirador do pensamento de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 – 1716) e o recomendou a Kant. Leibniz acreditava que a existência de Deus podia ser demonstrada racionalmente, sem depender apenas da fé (ou seja, ele era adepto da Religião Natural, defendida pelos iluministas como uma alternativa à religião tradicional). Para ele, todas as coisas existentes precisam de uma explicação. Esse raciocínio o leva ao “princípio da razão suficiente”, segundo o qual nada existe sem uma razão. A razão última só pode estar em um ser necessário, independente e absoluto — Deus. Assim, para Leibniz, Deus é o Ser absolutamente racional que garante a ordem e a harmonia do mundo. Em sua obra intitulada “Teodiceia” (1710), ele afirma que este mundo, criado por Deus, seria o melhor entre todos os mundos possíveis. Até mesmo o mal teria um papel dentro dessa ordem.

Lembremos que Hume era ateu (ou, pelo menos, agnóstico). Obviamente ele discordaria da religiosidade (mesmo pretensamente racional) de Leibniz. Mas as suas ideias que mais perturbaram Kant diziam respeito à relação entre conhecimento e realidade, expressas numa crítica ao princípio de causalidade. Para Hume, não há fundamento racional para inferir que um evento causa outro, como defendia Leibniz.    

Kant considerou que a leitura de Hume em algum estágio do seu segundo período de formação filosófica contribuiu decisivamente para que ele pudesse reconhecer e superar uma condição de “sono dogmático”. O primeiro resultado da reflexão que se seguiu foi a obra “Crítica da Razão Pura”. Isso o leva ao terceiro estágio de maturidade do seu pensamento filosófico, de uma abundante produção de grandes obras.

Importante ressaltar que a influência de Hume sobre Kant não significou um simples acolhimento, sem reservas, das suas ideias. Longe disso. Kant não se tornou ateu e não passou a menosprezar as religiões. Mas passou a considerar que a razão pura não permite o conhecimento e a prova da existência de Deus nem da essência das coisas (númeno), apenas dos fenômenos. Contudo, a Razão Prática é capaz de fundamentar uma autêntica moralidade individual autônoma (ética deontológica).

Kant e Adam Smith

Como já vimos, Adam Smith nasceu em 1723, na Escócia. E Kant nasceu em 1724, na Prússia. Mas não se conhece qualquer referência a Kant na obra escrita e publicada por Adam Smith, em vida e post morten. O mesmo ocorrendo nas obras publicadas de Kant em relação a Adam Smith. Não obstante, há evidências de que Kant leu os dois livros publicados em vida por Adam Smith, tendo usado a palavra “querido” para se referir a ele como um dos Filósofos Morais escoceses que atraíram o seu especial interesse, além de Hume.4 Por outro lado, não se conhece qualquer evidência de que Adam Smith tenha sequer lido alguma obra de Kant.

Como se poderia explicar por que Kant teria lido as obras de Adam Smith, enquanto a recíproca não é verdadeira? Segue-se uma explicação que nos parece, pelo menos, parcialmente válida:

Adam Smith publicou duas obras em vida, sendo a última em 1776. Kant viria a morrer somente em 1804, e sempre se dedicou em tempo integral à Filosofia. Ou seja, teve muito tempo para ler os dois livros de Smith. Já Adam Smith morreu em julho de 1790. E a obra relevante de Kant começou a ser publicada somente a partir de 1781. Das três obras de Kant mais diretamente relacionadas com a Filosofia Moral de Adam Smith (“A Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, a “Crítica da Razão Prática” e “A Religião nos Limites da Simples Razão”), a primeira foi publicada somente em 1785, a segunda em 1788 e a terceira em 1793. Esta última, três anos depois da morte de Adam Smith.

Há que se considerar, também, que depois da publicação do livro A Riqueza das Nações, em 1776, Smith passou a prestar consultoria a governos do Reino Unido sobre assuntos de política econômica e em 1778 foi nomeado para um cargo público que ocupou até pouco antes da sua morte. De 1781 a 1790 ele se dedicou a várias revisões amplas para novas edições dos seus dois livros (duas do TSM e três do RN). Finalmente, sabe-se que Smith sempre teve uma saúde frágil, desde criança, e passou seus últimos anos debilitado por uma doença prolongada e dolorosa.

Conclusão sobre as Visões de Immanuel Kant e de Adam Smith a Respeito de uma Ética Autônoma

Observe-se que essa proposição pode ser dividida em duas: 1. A autêntica moralidade é autônoma; 2. Ela se fundamenta na razão.Já vimos que Kant, no estágio de maturidade da sua Filosofia Moral, adotou ambas as partes dessa proposição (“Razão Prática”, no que concerne à segunda parte). Vejamos agora qual foi a posição de Adam Smith, de acordo com as suas próprias palavras.

Adam Smith sobre uma Moralidade Autônoma:

“Nenhuma ação pode ser propriamente chamada de virtuosa, se não for acompanhada do sentimento de auto-aprovação.5

Ora, essa simples frase de Adam Smith equivale precisamente à afirmação de que ele considerava autonomia pessoal uma condição necessária para uma moralidade autêntica. Uma avaliação sobre as atitudes morais nas diferentes situações contingentes da vida jamais pode se basear apenas em regras de origem externa à própria consciência do indivíduo.

Adam Smith sobre a Razão:

Para Smith (e David Hume), as primeiras percepções do certo e do errado não são derivadas da razão, como considerava Kant. E não é que ele tenha discordado de Kant depois de ter conhecido essa posição dele. Pois ele expressa essa avaliação na Parte VII, Secção iii, Capítulo II, do livro A Teoria dos Sentimentos Morais, intitulado: “Daqueles sistemas que fazem da razão o princípio da aprovação”, com as seguintes palavras:

“… embora a razão seja, sem dúvida, a fonte das regras gerais de moralidade e de todos os julgamentos morais que formamos por meio deles, é totalmente absurdo e ininteligível supor que as primeiras percepções do certo e do errado podem ser derivadas da razão, mesmo naqueles casos particulares sobre os quais as regras gerais são formadas. Essas primeiras percepções, bem como todos os outros experimentos sobre os quais quaisquer regras gerais são fundadas, não podem ser objeto da razão, mas de senso e sentimento.”6

Ou seja, essa opinião de Smith sobre a origem das percepções do certo e errado (moralidade)foi expressa bem antes da de Kant, já que o livro Teoria dos Sentimentos Morais foi publicado em 1759. Portanto, sobre esse tema foi Kant quem viria a discordar de Smith (e dos demais “Filósofos Sentimentalistas”).

Núcleo da Filosofia Moral de Kant: o “Imperativo Categórico”

Vimos que Kant apresentou pela primeira vez o conceito de “Imperativo Categórico” em sua obra “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, publicada em 1785, considerada a obra inaugural da ética kantiana. Ela tem como objetivo estabelecer os princípios racionais que fundamentam o dever moral, sem recorrer à religião ou à autoridade externa. Nessa primeira formulação Kant resumiu o significado do Imperativo Categórico como sendo o dever incontornável de agir, sempre, “… como se a máxima de tua ação devesse ser erigida por tua vontade em lei universal da Natureza”.

Sabe-se que as leis da Natureza – como a lei da gravidade – são universais e necessárias. Todos os seres estão sujeitos a elas, de forma incontornável. O Imperativo Categórico implica que a ação individual deve ter como princípio a ideia de poder se tornar como uma lei da Natureza. Segundo Kant, do Imperativo Categórico resultam o que ele chamou de “deveres perfeitos”: Não mentir, não cometer suicídio, não roubar/não tomar bens alheios, não fazer falsas promessas, respeitar a vida e a dignidade alheia.

Os deveres perfeitos não permitem exceções em nenhuma contingência da vida – são estritamente obrigatórios, em caráter universal. Para ilustrar essa universalidade usualmente é mencionado um exemplo hipotético que diz respeito ao dever de jamais mentir: suponha que um assassino procura uma pessoa sabidamente inocente, com o objetivo de matá-la, mas ainda não conhece o seu paradeiro. Porém, toma conhecimento de alguém que o sabe. Dirige-se a ela e lhe pergunta onde se encontra a pessoa que procura. Mesmo não sendo ameaçada, sabendo que o perseguido é inocente, e que o seu inquiridor pretende matá-la a sangue frio, segundo Kant o “dever perfeito” de “não mentir” dessa pessoa a obriga a falar a verdade para o assassino, informando-lhe onde ele poderá encontrar a sua vítima.

Kant sabe que, na prática, grande parte de nós, seres humanos, não adota o Imperativo Categórico e os Deveres Perfeitos. Muitos de nós não adotamos sequer o que Kant chamou de “deveres imperfeitos” (obrigatórios em princípio, mas flexíveis na forma de cumprimento). Mas o objetivo da Ética é, principalmente, indicar como as coisas deveriam ser, e não apenas como elas efetivamente são. Mesmo assim, a validade do “Imperativo Categórico” de Kant se tornou objeto de controvérsias entre diferentes correntes de Filosofia Moral. 

Núcleo da Filosofia Moral de Adam Smith: o “Observador Imparcial”

Vimos que, para Thomas Hobbes, a natureza do homem o leva necessariamente a ser “o lobo do homem”, nas relações sociais. Já Francis Hutcheson, o primeiro professor de Filosofia Moral de Adam Smith, considera que essa condição bárbara do homem descrita por Hobbes é “um estado da natureza humana não cultivado.”7 Para ele, no “estado cultivado da natureza humana” a consciência está ativamente se aprimorando e se desenvolvendo. Nesse estado cultivado, as pessoas cuidam de si mesmas, mas sentem também a necessidade de servir desinteressadamente aos outros (Benevolência). São essas as pessoas que se habilitam para conquistar uma autêntica moralidade autônoma. Adam Smith afirma que essa é uma descrição dos sistemas de Filosofia Moral para os quais a Benevolência (Amor e Caridade Cristãos) é a principal virtude. E observa que esse é o mesmo sistema que foi “muito estimado por muitos antigos pais da Igreja cristã, e, após a Reforma, adotado por vários teólogos da mais eminente piedade e erudição e dos modos mais amáveis.8

Em seu próprio sistema de Filosofia Moral, Smith acolhe a visão de Hutcheson sobre a natureza humana, no qual a principal virtude é a Benevolência. Mas, como sempre, a sua concordância com os pensadores que mais o influenciaram nunca é total. Ele discorda de Hutcheson quanto à posição dele no sentido de que, onde existe interesse pessoal, não pode existir virtude. Essa divergência é de grande importância para que se possa compreender o significado de “self-love” para Adam Smith, em toda a sua obra, incluindo o livro A Riqueza das Nações.

Mas retornemos agora ao “Observador Imparcial” (já havíamos nos referido a ele, especialmente na postagem – Oitava Parte – publicada em 26 de setembro de 2025), núcleo da Filosofia Moral de Adam Smith, tal como o “Imperativo Categórico” o foi para Kant.

“Observador Imparcial” é a metáfora usada por Smith para se referir ao que ele considera ser o recurso primário de percepção autônoma dos autênticos valores morais. É uma espécie de intuição, ou senso de percepção direta da consciência, que informa aos seres humanos qual a atitude moralmente indicada e apropriada para cada situação contingente da vida. Para Smith, esse é um recurso que se encontra potencialmente disponível para todos os seres humanos. Ele seria o prêmio a ser conquistado pelas “consciências cultivadas”: ter acesso e fazer uso de uma faculdade que, segundo Hutcheson, teria sido concedida por Deus. A metáfora do Observador Imparcial foi uma marca pessoal de Smith em relação aos conceitos de Hutcheson e de Hume sobre os “sentimentos” como fonte da moralidade.

A diferença em relação a Kant é que a identificação desses deveres não é feita pela razão prática. O “Observador Imparcial” não apresenta uma relação de deveres que precisam ser transformados em leis naturais de aplicação universal. No meu entendimento, o Observador Imparcial de Adam Smith não indicaria como dever universal “não mentir”. Ele não “diria” ao homem que está sendo pressionado por um assassino para denunciar a localização de uma vítima, para não mentir. Parece-me que, pelo contrário, a indicação seria: “nesse caso, você deve mentir”. Para Adam Smith, o exercício de nenhuma regra moral autônoma, nas contingências da vida, dispensa a autoaprovação. A autoaprovação se aplica porque o Observador Imparcial não é uma entidade inteiramente externa ao indivíduo.

O “Observador Imparcial” de Adam Smith pode ser considerado parcialmente fruto da presença divina no íntimo de cada ser humano, para quem se sentir confortável com uma abordagem considerada “religiosa”. Ou nada mais que um sentido extra de percepção da consciência. Afinal, pelo menos para algumas áreas da ciência moderna, a existência de outras formas de percepção, além dos cinco sentidos convencionais, há bastante tempo deixou de ser uma novidade.

A MORALIDADE EM TESE E NA PRÁTICA, PARA ADAM SMITH

Tal como Kant, obviamente Adam Smith também tinha consciência da distinção entre moralidade como objeto de estudo da Ética (como deveria ser); e moralidade prática, mundana. O “Imperativo Categórico” de Kant era o núcleo da sua Ética. Para Adam Smith, esse núcleo era o “Observador Imparcial”. E segundo ele, mesmo na prática sempre existiram pessoas sábias que conduzem rigorosamente as suas vidas de acordo com a orientação do seu Observador Imparcial. Essa espécie de ser humano “nunca sofreu a suspeita de que o homem dentro do seu peito deixaria por um único momento de lhe prestar a sua atenção… Ele quase se torna ele mesmo aquele ´observador imparcial´, e raramente sente qualquer coisa, exceto o que esse grande árbitro da sua conduta o dirige para sentir.”9

Infelizmente, na prática, frequentemente, também, os nossos desejos, motivações e condicionamentos nos impedem de receber a “orientação” do nosso “Observador Imparcial”. Ou seja, na linguagem de Smith, o nosso “homem exterior”, “de extração humana”, sufoca a manifestação do nosso “homem interior”, “de extração divina”. Vejamos as palavras do próprio Smith descrevendo como isso ocorre:

“Em tais casos, esse semideus dentro do peito aparece, como os semideuses dos poetas, embora em parte de extração imortal, mas em parte também de extração mortal. Quando seus julgamentos são firmemente dirigidos pelo senso de louvor e merecimento, ele parece agir de acordo com sua divina extração. Mas quando ele se deixa surpreender e confundir pelos julgamentos do homem ignorante e fraco (o homem exterior), ele descobre sua conexão com a mortalidade, e parece agir adequadamente, mais para a humana, do que para a divina, parte de sua origem.”10

Assim, segundo Smith, é mais fácil que prevaleçam os sentimentos do “homem interior” nas nossas ações somente depois que as praticamos. Mas nesse caso os nossos julgamentos são agora de menos importância, sendo capazes de produzir nada mais que vãs lamentações e arrependimento pouco proveitoso. Adam Smith considera que, “… esse autoengano, essa fraqueza fatal da humanidade, é a fonte de metade das desordens da vida humana.”11

Na próxima postagem concluiremos o exame desse tema. Por meio dela, portanto, concluiremos o exame da provável concepção íntima de Adam Smith sobre Deus e religião, e a influência dessa concepção sobre a sua obra, que iniciamos no dia 31 de julho de 2025.

Periodicamente, poderemos realizar reuniões online dedicadas exclusivamente a esclarecer dúvidas e compartilhar ideias sobre o conteúdo até então já disponibilizado neste blog.

Para mais informações entre em contato com a Organizadora do Autor: 

Jacqueline Lima
O ESPAÇO DE CRIAÇÃO
E-mail: oespacodecriacao@gmail.com

REFERÊNCIAS

1. “How to be Human – Though an Economist” – Deirdre McCloskey – The University of Michigan Press – 2000, pg. 5;
2. Adam Smith, “A Teoria dos Sentimentos Morais,VII.i.2;
3. Dieter Henrich, em seu estudo clássico Hutchesonund Kant (1957), mostra como Kant se engajou criticamente com Hutcheson ao desenvolver sua própria ética. Kant Studien 49 (1-4):49-69 (1957);
4. Ver “Adam Smith and Equality” – Samuel Fleischacker – Ph.D., Philosophy Department, University of Illinois, Chicago. Estudios Públicos, 104 (Spring 2006) – Introduction;
5. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, III.VI.13;
6. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, VII.iii.2.7., pg. 320;
7. Francis Hutcheson, Palestra inaugural sobre a Natureza Social do Homem (1730). Em Francis Hutcheson: Sobre a Natureza Humana, ed. Thomas Mautner. 1993. 132. Cambridge: Cambridge University Press;
8. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, VII.ii.3.3;
9. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, III.3.25;
10. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, III.2.32;
11. Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, III.4.6.

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